quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

"PLENIPOTENCIÁRIO" de Tina Modotti*(1896-1942)

Gosto de me balançar no céu

E cair sobre a Europa.

Pular outra vez para cima como uma bola de borracha,

Esticar uma mão até ao telhado do Kremlin,

Roubar uma telha

E atirá-la ao Kaiser:

Porta-te bem;

Vou dividir a lua em três partes,

aquela maior vai ser para ti.

Não a comas depressa demais.

Tina Moddotti de Richey publicado na revista "The Dial", Los Angeles, Maio de 1923

*Tina Modotti (16 (ou 17) de agosto de 1896 - 5 de janeiro de 1942) era uma fotógrafa italiana, modelo, atriz e ativista política revolucionária.


Tina Modotti, terras e tempos : viagem por quatro décadas do século XX. 1ª ed. Lisboa : Câmara Municipal , 2001. , 88 p. : il. ; 25 cm.

Obra disponível na Biblioteca Municipal de S. João da Madeira

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

"ENTARDECER" de Miguel Torga


Longa sutura a unir

A voz do mar

E o silêncio da terra,

A estrema do areal

É um verso branco, táctil, ondulado;

Cansado de brilhar,

O sol desce e coalha

Em acres e vidradas cantarinhas;

Deitada à sobra da sua beleza,

Uma Vénus humana, semi-nua,

Purifica a impureza

A olhar as vagas onde o céu flutua.



Miguel Torga
Nazaré, 13/8/1969



in TORGA, Miguel - Diário XI. Coimbra: s.n., 1973. p. 53

Obra disponível na Biblioteca Municipal de S. João da Madeira



Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Correia Rocha, (São Martinho de Anta, Sabrosa, 12 de Agosto de 1907 — Coimbra, 17 de Janeiro de 1995) foi um dos mais importantes escritores portugueses do século XX, considerado, por alguns, o poeta português mais importante do século XX.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

"O menino" de António Augusto de Almeida*



Hoje nos nasceu “O Menino”
O seu nome é Jesus;
Nasceu pobre e pequenino;
E por Ele veio a luz.

Nasceu da virgem Maria;
Gerado por Deus no amor;
Mas isto ela sabia;
Que era Ele seu Salvador.

Nas bodas, o vinho ficou de fora;
A Jesus o fez saber;
“Não chegou a minha hora”
“Que queres que faça mulher”

Nela foi feita a vontade de Deus;
Deu-lhe todo o seu ser;
Dizendo aos servos seus;
“Fazei o que Ele vos disser”

O plano por Deus feito;
Funcionou na perfeição;
Maria o levou com jeito;
Mas é Dele a Salvação.

Hoje salvos por Cristo;
Devemos cantar-lhe um hino;
Maria sabia disto;
O redentor é o menino.

A todos queremos honrar;
Um por um na sua vez;
Cada um no seu lugar;
É o plano que Deus fez.

Foi com toda a concordância;
Sabendo que isto é divino;
Maria teve sua importância;
Mas a Glória é do menino.

*Poeta sanjoanense premiado no Concurso "Poesia na Corda", no âmbito da Poesia à Mesa 2010

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

"AO DR. RENATO" DE ADÃO CRUZ

Apenas dois raios da frouxa luz do crepúsculo penetram na janela e
atravessam a sala, bordejando timidamente a penumbra e tocando de leve

brilho os sapatos negros.

No além do quarto, para lá da porta, a densa quietude da paz e do silêncio.

Sobre a cama um corpo sem dobras, estendido de cima a baixo

Nem uma vela nem uma flor nem uma renda.


O mesmo leito onde dormiu os sonos temporários.

O mesmo leito onde o sono temporário se fez definitivo.

A nudez física, de singelo pudor enfiada num longo e magro fato preto.

A nudez da vida, despida de mentira, vaidades e impurezas.

A nudez da morte, limpa de crenças e fantasias.

A nudez da vida e da morte abraçadas, por fim, no esquálido enconto de um

corpo que foi gente.

Gente que a gente não gosta de ver partir, por ser rara,

Por ser um verso do Universo, ou simples protão, mas daqueles que deixam na sua órbita um rasto de luz e dignidade.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

JOSÉ LUÍS PEIXOTO


na hora de pôr a mesa, éramos cinco:

o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs

e eu. depois, a minha irmã mais velha

casou-se. depois, a minha irmã mais nova

casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,

na hora de pôr a mesa, somos cinco,

menos a minha irmã mais velha que está

na casa dela, menos a minha irmã mais

nova que está na casa dela, menos o meu

pai, menos a minha mãe viuva. cada um

deles é um lugar vazio nesta mesa onde

como sozinho. mas irão estar sempre aqui.

na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.

enquanto um de nós estiver vivo, seremos

sempre cinco.



José Luís Peixoto, in "A Criança em Ruínas"


PEIXOTO, José Luís - A criança em ruínas. 6ª ed. Famalicão : Quasi , 2003. ISBN:978-989-552-168-5

Obra disponível na Biblioteca Municipal de S. João da Madeira

sábado, 16 de outubro de 2010

"REDESCOBRINDO A MINHA ALMA" de Dina Silvério


A sessão de lançamento da obra poética "Redescobrindo a minha alma" de Dina Silvério, foi apresentada pela professora Dra. Ana Paula Santos e animada pelos seus alunos, que declamaram poesia com fundo musical, o que proporcionou às 150 pessoas presentes um agradável serão.

Dina Silvério é natural de Ferragudo - Lagoa, Algarve, mas vive em S. João da Madeira há 13 anos, onde exerce a sua profissão como Assistente Social. Tem duas filhas e dedica-se à poesia como forma de evasão.

Na introdução do livro confessa a sua "vontade louca de tingir as folhas nuas", e que as suas "emoções traduzidas, transformam-se em simples poesia".

"ALMA DE PÁSSARO"

Vim do mar para te ver
E encontrei o sol a chorar.
No vento que corria, andavas perdida,
Sem rumo certo, nem porto seguro,
Onde pudesses atracar.
Vim do mar para te ter,
Mas a lua já te possuíra
E contigo fugira,
Sem dar tempo às estrelas para brilhar.
Vim do mar para te dizer:
Vem comigo, vem viver!...
Mas tu, deambulando, esquecida,
Perguntaste: Que queres de mim, ó vida?!
E foste pelo mundo a correr.
E eu sofrida, fui para o mar,
Para te esquecer!

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

UMA PAISAGEM DA HOLANDA de Nuno Júdice

Há, em todos os poemas de Pessoa, uma paisagem
da Holanda. As vacas pastam nos campos; e os moinhos
de Delft rodam sobre elas, com asas, fazendo-as
voar ao longo dos diques. Mas não chega meter
uma vaca no centro do poema, nem espremê-la para que
o seu leite se derrame nos aventais das holandesas
de Vermeer, ajoelhadas para escaparem ao reflexo no
espelho da janela. É preciso pôr rodas nas vacas,
e empurrá-las, como bicicletas, ao longo dos canais
de Amsterdão. “Por que não montas na tua vaca?”
perguntam os barqueiros. E só para os irritar salto
para cima dela, agarro nos chifres, como se
fossem um guiador, e viro-a para direita e para
a esquerda, empurrando os vendedores de queijo
flamengo para o rio, onde as bolas de queijo se
transformam em bóias a que eles se agarram,
flutuando durante horas. O problema é quando
a fome os obriga a comer o queijo; e quanto menos
queijo têm, mais se afundam, até se afogarem,
sob o olhar melancólico das vacas do Pessoa.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

"ACORDOS" DE NUNO JÚDICE


Posso combinar uma coisa com o senhor Pessoa:
ele que trate das suas pessoas, que as leve ao médico,
lhes dê de comer, e as meta na cama, às três,
sobretudo, e já agora às outras, se as houver,
que eu não me meto nisso. Pessoa,
basta-me a que tenho, e que já combinou
tudo com o Pessoa – mas o próprio,
de gabardine para não apanhar com a chuva
oblíqua no fato preto, e opiário no bolso
por causa do pagode marítimo.

Posso combinar outra coisa com o senhor Camões:
Apanhe o avião para a Índia no terminal dos charters,
que são mais baratos; e veja se não fuma às escondidas,
que é proibido; e menos ainda ligue o telemóvel,
que interfere com os instrumentos de voo, mesmo
que precise muito de falar com a Natércia, ou com
a Leonor, ou com a Bárbara, ou qualquer outra das mil
e três que lhe infestam sonetos e canções. O
que eu quero dele é que me traga de Hong-Kong (por onde
tem de passar a caminho de Macau) um Rolex
de imitação – no free-shop é mais barato.

E contigo, meu caro Pessanha,
quero combinar outra coisa: não me peças nada
Para o Wenceslau. Deixa-o estar no Japão, que
está lá muito bem, e o caminho de volta
para a pátria não se recomenda a ninguém. E tu,
ópio à parte, ensina a nossa querida língua a uns
quantos chineses, mesmo que eles troquem os erres
pelos eles. No teu nome, Camilo, é que não
há troca possível. E se fores à gruta do Camões, leva
o piquenique: talvez não queijadas de Sintra
nem pastéis de nata, mas um frango de aviário
e batata frita (esquece o arroz, que é melhor
ao jantar, no chinês do costume).

terça-feira, 27 de julho de 2010

ADÃO CRUZ - "UM GESTO DE SILÊNCIO"


Médico, pintor e poeta, lançou a sua sétima publicação com poemas e pinturas sob o tema silêncio.


Segundo o autor "a grande força da nossa vida reside no silêncio, a primeira voz que um homem ouve quando está dentro de si" e "só o silêncio permite desvendar as verdades dentro de nós, tendo muitas vezes vontade de as gritar".



A poesia não é mais que um dilema


Entre o silêncio e a palavra.


Por isso nunca sei se é grito ou é silêncio


O que há na essência do poema.


O silêncio não é palavra


Se a palavra é de silêncio.


O silêncio é uma pausa


nas palavras dos poemas


que se gritam em silêncio


por entre as horas da vida.


O silêncio não é silêncio


por entre as horas da vida.


O silêncio não é silêncio


Se há silêncio na palavra


Quando a palavra é melodia.

terça-feira, 20 de julho de 2010

"Era uma vez em Outubro" de Eva Cruz








Um aviãozinho de papel direito ao quadro preto
foi cair certeiro no bico do ponteiro.

Pega a professora no aviãozinho de papel, volta-se
e remete-o com a mesma pontaria, sem fúria nem
rancor, com a mesma alegria, ao menino brincalhão
que logo perdeu a ilusão de brincar aos aviões.

Foi tão fácil entender, ele e a professora, que com a
mesma pontaria e a mesma alegria, aquela guerra
nem era quente nem era fria.

p.16

segunda-feira, 19 de julho de 2010

"Era uma vez em Outubro" de Eva Cruz

O mais recente livro da professora Eva Cruz foi apresentado por ex-alunos e uma colega. A professora da Escola Oliveira Júnior Cristina Marques, o advogado Miguel Amorim, o professor Pedro Nuno Pinto de Oliveira, a presidente da Universidade Sénior Susana Silva e a professora Clara Reis, que sempre acompanhou Eva Cruz na execução de projectos escolares, apresentaram “Era uma vez em Outubro”, na Escola João da Silva Correia.

O livro é dedicado aos alunos e à escola e faz um relato abreviado, em texto poético, da vida profissional de Eva Cruz, desde que entrou para a escola, aos seis anos, até que se aposentou do Ensino, em 2001. A professora ensinou Inglês e Alemão na Escola João da Silva Correia.


“Era uma vez em Outubro” sucede a “Era uma vez, Future Kids”, de 2004, e “Aurora Adormecida”, de 2006.
É o livro deles, para eles e para toda a escola”.

Em “Era uma vez em Outubro” Eva Cruz começa por relatar a primeira experiência na escola: “sexos diferentes, sexos separados./ Também a perversão se ensina, a modos que de moral. (...) O crucifixo entre os retratos de Salazar e Carmona./ (...) Quem seria tal gente? Que importava tal gente?/ (...) Aprender!/ Que há ricos e pobres./ O senhor ou a senhora professora sempre / mimavam os primeiros com um beijinho de/ Bom-Dia”. “Uma escola muito diferente da de hoje”.

A professora tece considerações sobre a liberdade de pensamento – ou a falta dele -, a distância entre professores e alunos, a chamada pelo número em vez de pelo nome e os livros proibidos.

Lembra com mais encanto a passagem por Coimbra e o desabrochar que lhe provocou – “quando sai de lá, pensava que não havia terra mais linda do que aquela, nem era possível viver em mais lado nenhum”. Mas logo volta a encontrar-se com o passado cinzento assim que inicia carreira numa escola. Com este novo passo veio o desemprego, a falta de vagas, o não receber nas férias, a distinção entre professoras eventuais e efectivas, mas também as alunas “brilhantes e amigas”.

Eva Cruz é conhecida no meio escolar não só pelo rigor e pelas competências científicas mas também pela relação que construía com os alunos. A alguns deles, já falecidos, dedica algumas passagens deste livro. É o caso do guitarrista Gustavo Brandão “Vi-te cantar a vida sonhando com a vida inteira” e de Hélder Neves (“Good boys go to Heaven”), para citar os mais conhecidos.

Orgulha-se de nunca ter sido vítima de má educação e de nunca ter marcado uma falta disciplinar. “Tive comportamentos mais indisciplinados mas reagia sempre de uma forma mais ou menos espontânea – sempre fui espontânea – e com muita convicção”, justifica-se. Sublinha também que nunca deu uma aula sentada – “estava sempre de pé e no meio deles, ou tocando ou chamando a atenção”. Ou seja, uma professora bem diferente das que teve, como reconhece, e que encarna o objetivo delineado no liceu: “essa forma de ensinar tem de fluir por outros caminhos./ Mais coloridos. /Mais risonhos.”, escreve no livro.

A autora reflete ainda sobre a passagem do 25 de Abril nas escolas e as implicações, nem todas positivas, que a revolução trouxe na fase inicial. “Alguns exageros/ algumas injustiças./ (...) A guerra das forças políticas a servirem-se da escola”,.

No relato não são também esquecidos antigos colegas como a Clara, a Isilda, a Carmina, a Nelly e o Borges, a quem dedica algumas passagens.

Eva Cruz considera que “teria cabimento” apresentar este livro quando se aposentou, em 2001. “Só que tive imensa dificuldade”, justifica. “Comecei precisamente por fazer uma crónica mas depois escolhi este jogo entre o “ensinar” e o “aprender” (os versos são sempre intercalados por estas duas palavras), que já me satisfazia”.

A professora, que até se considera uma “mulher das Ciências” e quem o pai gostaria que fosse advogada, reformou-se ao fim de 36 anos de serviço porque “tudo tem o seu tempo”, mesmo que custe. “Até estava mentalizada para a saída. Mas quando recebi pelo correio a confirmação da aposentação tive um ataque de choro que foi uma coisa incrível”, confessa. Olhando para trás, acha que fez bem, porque queria sair com as faculdades plenas. “Gostei daquilo que fiz e se voltasse atrás voltava a ser professora”, responde, sem hesitar.

“Era uma vez em Outubro” sucede a “Era uma vez, Future Kids”, lançado em 2004, e “Aurora Adormecida”, publicado em 2006. Pretende ser uma continuação do primeiro, na medida em que dá seguimento ao relato deste, mais concentrado na infância de Eva Cruz. Ambos são baseados em vivências pessoais e apresentam algumas semelhanças nos motivos escolhidos para a capa, desenhada pelo sobrinho Manel Cruz, assim como as ilustrações do interior.

terça-feira, 13 de julho de 2010

SEBASTIÃO DA GAMA E O ESPÍRITO DA POESIA À MESA

O Poeta beija tudo, graças a Deus… E aprende com as coisas a sua lição de sinceridade… E diz assim: “É preciso saber olhar…” E pode ser, em qualquer idade, ingénuo como as crianças, entusiasta como os adolescentes e profundo como os homens feitos… E levanta uma pedra escura e áspera para mostrar uma flor que está por detrás… E perde tempo (ganha tempo…) a namorar uma ovelha… E comove-se com coisas de nada: um pássaro que canta, uma mulher bonita que passou, uma menina que lhe sorriu, um pai que olhou desvanecido para o filho pequenino, um bocadinho de sol depois de um dia chuvoso… E acha que tudo é importante… E pega no braço dos homens que estavam tristes e vai passear com eles para o jardim… E reparou que os homens estavam tristes… E escreveu uns versos que começam desta maneira “O segredo é amar…”.
Por tudo isto é que eu fiz a Semana da Poesia. Por tudo isto e porque de pequenino é que se torce o pepino. Por falta dela nas antologias escolares, ou pela só presença de Correias de Oliveira, Azevedos, Castelo Branco e mais da mesma firma, é que os rapazes chegam a homens com uma má vontade à Poesia ou uma ignorância dela que confrangem um cristão. É preciso, subtilmente, deitar-lhes no sangue este veneno – não tanto para que gostem de versos ou saibam versos de cor, como para que olhem o mundo através da janela da Poesia, para que beijem tudo, graças a Deus, para que saibam olhar, para que reparem nas flores e nas ovelhas. Isto é que se quer que eles façam, sem respeito humano, pela vida fora. Digo “sem respeito humano”, porque é fora de dúvida que a maior parte de nós, Portugueses, temos cá dentro um impulso que nos levaria a fazer tudo ou quase tudo que fazem os Poetas, se não fosse um receio de parecer menos viril. A gente tem vergonha de beijar tudo, de amar as flores, de se enternecer com os animais, de dar um passeio. Se beija uma árvore, é parvo; se traz uma flor na mão, é maricas; se se enternece, é fraco; se acaricia uma menina, põe nessa carícia o sexo; se vai a qualquer parte passear e ver o mundo, faz constar que foi em viagem de estudo ou viagem de negócios. Temos vergonha de ser sinceros, de que nos creiam parvos, ou maricas, ou fracos, ou lúbricos, ou estroinas. E então perdemos o melhor da nossa vida a ludibriar os outros e a insultar as nossas intenções mais belas e generosas. Ó Portugueses, é tempo de torcer o pescoço ao respeito humano. Olhai que nós somos bons e talvez seja verdade que somos Poetas – e isso não deve ser desprezado, mas antes manifestado. Começai a ser sinceros, deixai de ser irónicos, e vereis como tudo corre melhor e a vida tem outro sabor!

In "Diário" (09 Março, 1949)

GAMA, Sebastião da - Meu caminho é por mim fora[CD]. [Setúbal] : Associação Cultural Sebastião da Gama , 2010.
(Disponível na Biblioteca Municipal de S. João da Madeira)

POEMA A SARAMAGO DE EVA CRUZ

Levantado do chão
como só os Homens de sonho se erguem
não há vida que te deite nem morte que te leve.
A lucidez esparsa em luz nas páginas dos teus livros
de mão dada com a terna dureza do teu carácter
há-de curar os olhos da cegueira
e abrir as palavras do teu Evangelho
às correntes límpidas dos rios
que regam a terra de sabedoria.

Eva Cruz

In Jornal Labor
de 24-06-2010

AMIGO SARAMAGO DE ADÃO CRUZ

Amigo Saramago

Tu morreste, segundo me informaram, em plena lucidez e consciência, sem qualquer medo ou surpresa em relação à morte. Foi assim e não podia ser de outra maneira, porque tu tinhas da vida e da morte o conceito antropológico, filosófico e de liberdade com que vivem e morrem os homens que não são homens vulgares.
E tu não foste um homem vulgar. Do ponto de vista literário, tu fizeste o que, até aí, ninguém fez, talvez depois do Padre António Vieira. Revolucionaste a literatura, quebraste a cristalização da literatura clássica como se tivesses feito explodir um fogo de artifício ao fim da página trinta ou quarenta do teu “Levantado do chão”. Criaste uma profunda influência na maior parte dos escritores portugueses actuais. E não só portugueses.
Consta-se que nunca disseste mal ou menosprezaste outro escritor. Por isso, creio que não desprezarás a minha opinião. Passaram perante os meus olhos, nas minhas leituras, além de ti, dezenas, se não centenas de escritores, desde a minha juventude, desde aqueles dezoito anos, em que eu devorava Dostoievski, debaixo dos lençóis, à luz de um foco olho-de-boi para que minha mãe não visse. Sinto que tenho algum direito a falar da tua obra. E a tua obra foi das mais belas que li, das que mais me ensinaram e perturbaram, no construtivo sentido que a perturbação pode trazer, das mais difíceis de construir, das mais penosas a levantar do chão.
E fizeste-o com toda a humildade e sabedoria das grandes mentes que têm a noção da sua pequenez humana. Basta ver que por todos os teus livros vagabundeia um narrador que não és tu nem uma personagem inventada, um fio condutor que não é obra estéril de ficção, mas a voz de um povo, a voz do povo, a voz da humanidade. Quem fala nas entrelinhas de toda a tua obra é a humanidade. Magnífica mensagem, a da humanidade silenciada. Comoves-me, meu amigo, porque entraste profundamente no coração do meu pensamento.
Mas a tua escrita, profunda e admirável escrita, que vai desde a esperança ao descrédito na humanidade, é a tua humanidade. A escrita do pensador, a lucidez do escritor, a humanidade do ser humano, a humanidade do criador de utopias, que consegue ter a coragem de chegar ao fim da vida sorrindo das suas próprias utopias. Morres com um sorriso nos lábios, não pela paz do mundo pela qual lutaste, mas com a paz de quem tudo fez para que assim não fosse, depois de teres dito ou pensado que, no fim de contas, das tuas contas, o homem é uma merda, um vírus que apareceu na cadeia evolutiva, metido à força no gráfico de Hillis, contaminando, irremediavelmente, não só toda a humanidade como toda a ordem natural dos seres vivos. Creio que tens razão, embora mantenha ainda a esperança ou a utopia de a não teres.

Adão Cruz
In Jornal Labor
24-06-2010

quinta-feira, 24 de junho de 2010

José Saramago 1922-2010





E porque de um blog de poesia se trata, deixamos aqui a nossa homenagem ao escritor e poeta José Saramago







Passado, Presente, Futuro

Eu fui. Mas o que fui já me não lembra:
Mil camadas de pó disfarçam, véus,
Estes quarenta rostos desiguais.
Tão marcados de tempo e macaréus.

Eu sou. Mas o que sou tão pouco é:
Rã fugida do charco, que saltou,
E no salto que deu, quanto podia,
O ar dum outro mundo a rebentou.

Falta ver, se é que falta, o que serei:
Um rosto recomposto antes do fim,
Um canto de batráquio, mesmo rouco,
Uma vida que corra assim-assim.

José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"

quarta-feira, 26 de maio de 2010

ANTÓNIO MOTA (REINTERPRETADO)

Reinterpretação da poesia de António Mota, por alguns alunos das Escolas Básicas de S. João da Madeira














POESIA TODO O ANO

O blogue da Poesia à Mesa pretende ser um espaço de todos e para todos, um espaço de poesia e sobre poesia, que exista não apenas no mês de Março mas ao longo de todo o ano.

Reiteramos este princípio e desafiamos todos os amantes de poesia a colaborarem na construção deste espaço porque entendemos que a poesia deve estar nas mesas sanjoanenses ao longo de todo o ano.

Por isso, se escreve poesia, se conhece um poeta cujo trabalho aprecie, se leu um novo livro de poesia, se tem uma opinião para partilhar, envie-nos por mail o seu texto e a sua identificação e ao longo do ano publicaremos a sua mensagem.

Não deixe de colaborar e ajude-nos a fazer deste blog uma Ágora de Poesia… porque para falar de poesia ou escrever poesia não há data nem hora marcada.

Contamos consigo e com as suas palavras!

(para participar basta enviar um mail para a biblioteca municipal com o assunto "blog poesia à mesa" - bibliotecamunicipal@cm-sjm.pt )


Reinterpretação da poesia de António Mota, por alguns alunos das escolas básicas de S. João da Madeira














domingo, 25 de abril de 2010

POESIA NA CORDA

Na passada 6ª feira, dia 23 de Abril, pelas 18 horas decorreu na Biblioteca Municipal uma sessão de entrega de prémios aos participantes da Poesia na Corda, na qual estiveram presentes cerca de 100 pessoas.
Os prémios atribuidos foram os seguintes:
POEMAS PEQUENINOS

TEMA: AMBIENTE

Poesia colectiva – Alunos do 1º Ano, EB1 de Casaldelo
Título: Vamos salvar o mundo

Inês Raquel C.F.M. Silva
Título: Natureza

TEMA: AMOR

Nome: Rafael Ferreira
Título: O amor

Nome: Maria Inês Leal
Título: A procura

Nome: Tiago André Oliveira Resende
Título: Sentimentos

Nome: Nuno Francisco Lima Gomes
Título: A amizade


TEMA: INDÚSTRIA E COMUNIDADE

Nome: Afonso Alves Cunha
Título: O chapéu


Nome: Filipa Carvalho Sousa Pinto
Título: Na minha escola


PRÉMIO REVELAÇÃO

TEMA: OUTROS

Nome: Beatriz Pinho Pereira
Título: Os livros


JOVENS

TEMA: AMOR

Nome: Cátia Freitas
s/ Título

ADULTOS

TEMA: AMOR


Nome: Joaquim de Almeida
Título: Olhos Negros

Heini Bernmat (Out.)
(Maria Adriana Sardinha Seixas), 51 anos)
Título: As Prateleiras

TEMA: AMBIENTE

Nome: Lizete Gomes
Título: Fim de dia

TEMA: OUTROS

Nome: António Augusto de Almeida
Título: Grandes obras

quinta-feira, 15 de abril de 2010

POESIA NA CORDA 2010


No próximo dia 23 de Abril, pelas 18 horas terá lugar na Sala Polivalente da Biblioteca Municipal a sessão da entrega de prémios aos autores dos poemas da Poesia na Corda 2010.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

POESIA À MESA EM IMAGENS

Com a cortesia da redacção da localvisão do distrito de Aveiro, pode visionar alguns momentos da Campanha POESIA À MESA 2010.

(clique nas imagens)



quarta-feira, 31 de março de 2010

"Apenas um pretexto…" a propósito da tertúlia poética



Apenas um pretexto…


Um pretexto para encontrar amigos. Um pretexto para conversar. Um pretexto para falar de Poesia. Um pretexto para conhecer Poetas.


O pretexto existiu e a tertúlia aconteceu à volta de textos sem pré-textos. De facto, amena e naturalmente, a conversa fluiu num círculo que nivelou os autores, os leitores, os ouvintes e os organizadores. Todos nos sentimos envolvidos, aprendendo com os que vêem a vida com a sensibilidade de poeta, pincelando palavras, musicando frases e arquitectando ideias…


Esta partilha da palavra poética permitiu-nos perceber a importância da dinamização de eventos culturais que, nos limites da nossa terra, nos projectam para a dimensão do que nacional e internacionalmente se produz.


Cristina Marques


(Cristina Marques, professora da Escola Secundária Oliveira Júnior, foi responsável pela condução da Tertúlia Poética, tendo lançado os temas para debate e incentivando a participação dos diversos poetas presentes)