Todos quiseram participar na construção deste belo conto tradicional.
domingo, 20 de março de 2011
"A CAROCHINHA E O JOÃO RATÃO" NO FLANELÓGRAFO
Todos quiseram participar na construção deste belo conto tradicional.
O SERVIÇO EDUCATIVO NA SEMANA DA POESIA
HISTÓRIAS COM CHAPÉUS
HISTÓRIAS COM CHAPÉUS
sexta-feira, 18 de março de 2011
Peregrinação Poética e os Social Smokers
O actor Pedro Lamares ao longo da noite fará uma peregrinação pelos seis poetas homenageados, onde serão declamados, musicados e teatralizados diversos poemas pelas instituições e associações locais.
Mais tarde, pelas 24 horas, os Social Smokers apresentam “Magnetic Poetry”, tendo como convidado especial J. P. Simões. Trata-se de um espectáculo de apresentação do novo álbum dos Social Smokers (spoken word/poetry slam) e Open MIC – Microfone aberto a todos os participantes, com os slammers dos Social Smokers e apresentação de J. P. Simões.
Não perca esta oportunidade e participe!
À conversa com... Pedro Mexia
Durante a sessão o poeta convidado revelou-nos os seus gostos e preferências, as fontes de inspiração e algumas curiosidades como, por exemplo, as recolhas de diálogos que faz junto dos taxistas da cidade, o universo da blogosfera e a sua mais recente experiência de criação de textos para teatro.
Mais uma vez, como é habitual nestas sessões, num ambiente informal estabeleceu-se um diálogo aberto com o escritor.
quinta-feira, 17 de março de 2011
`A CONVERSA COM... PEDRO MEXIA

quarta-feira, 16 de março de 2011
ouvir poesia à mesa

Já se ouve poesia, à mesa dos restaurantes, desde segunda-feira.
Uma das mais emblemáticas actividades da Poesia à Mesa acontece em vários restaurantes da cidade ao longo de toda a semana.
Deixe-se surpreender pelo poeta José Fanha num restaurante perto de si e acompanhe a sua refeição com uma ementa poética especialmente preparada pelo restaurante!
terça-feira, 15 de março de 2011
a não perder
Este evento conta também com os Social Smokers, que apresentam o seu novo álbum “Magnetic Poetry”.
A Campanha Poesia à Mesa, que conta também com a presença habitual do poeta e declamador José Fanha, decorre a partir de 12 de Março, com especial destaque para o fim-de-semana que antecede o Dia Mundial da Poesia (21 de Março), durante o qual a obra de diversos autores de Língua Portuguesa será divulgada em vários pontos da cidade.
Nesta edição os seis poetas homenageados são Cecília Meireles, David Mourão Ferreira, Gonçalo M. Tavares, Nuno Higino, Pedro Mexia e Rosa Lobato Faria.
As suas palavras vão surgir impressas em bases de copos, toalhetes de mesa, lápis e muitos outros suportes, de forma a irem ao encontro das pessoas em lugares tão inesperados como restaurantes, cafés, pastelarias, bares...
Uma vertente importante deste evento decorre também em espaços culturais sanjoanenses como a Biblioteca Municipal e os Paços da Cultura, assim como na Feira do Livro, que funcionará de 14 a 21 de Março, na Rua Padre Oliveira, na zona pedonal da cidade, com a presença das Livrarias locais e de algumas Editoras.
A poesia está à mesa
Mais uma vez a Poesia regressa à cidade com um programa recheado de interessantes actividades para toda a comunidade.
Em 2011 os poetas homenageados são Cecília Meireles, David Mourão-Ferreira, Gonçalo M. Tavares, Nuno Higino, Pedro Mexia e Rosa Lobato Faria.
Do programa geral de 14 a 21 de Março, destacamos:
FEIRA DO LIVRO - Rua Padre Oliveira, na zona pedonal, com a presença das Livrarias locais e de algumas Editoras.
WORKSHOPS DE POESIA –a decorrer em todas as escolas básicas do 1º ciclo.
POESIA NA CORDA – A poesia vai estar nas ruas da cidade.
EMENTAS POÉTICAS – Também os restaurantes da cidade vão ter poesia servida à mesa.
À MESA COM POESIA – Ao longo da semana haverá poesia declamada pelo poeta José Fanha nos restaurantes da cidade.
Dia a dia daremos conta do que vai acontecer e daquilo que se vai fazendo...Fique atento!
sexta-feira, 11 de março de 2011
"Era uma vez um cavalinho" de Nuno Higino

um cavalinho montês
quando ia a montá-lo
fugia para o Gerês
Cavalinho, cavalinho
não te enganes no caminho!
Era uma vez um cavalo
um cavalinho mandão
quando iam a montá-lo
fugia para o Marão
Cavalinho, cavalinho
não te enganes no caminho!
Era uma vez um cavalo
um cavalinho da feira
quando iam a montá-lo
fugia para a Madeira
Cavalinho, cavalinho
não te enganes no caminho!
HIGINO, Nuno; SIZA, Álvaro - Todos os cavalos e mais sete. Marco de Canavezes : Cenateca, Associação Teatro e Cultura , 2003. , 46, [1] p. : il. ; 23 cm. ISBN: 972-98834-1-6
(Obra disponível na Biblioteca Municipal de S. João da Madeira)
Nuno Higino (Felgueiras, 1960) é professor de filosofia e sociologia na Universidade Fernando Pessoa. É licenciado em Teologia e doutorado na área da Filosofia Estética com uma tese apresentada na Faculdade de Filosofia da Universidade Complutense, em Madrid, sobre os desenhos de Álvaro Siza, uma leitura a partir de Jacques Derrida. Integra a equipa de trabalho da Associação Casa da Arquitectura. Faz parte da direcção da Cooperativa Árvore e da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto. Tem vários títulos publicados da área da poesia e da Literatura infanto-juvenil.
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
AS JANELAS DO MEU QUARTO DE ANTÓNIO GEDEÃO

Tenho quarenta janelas,
nas paredes do meu quarto,
sem vidros nem bambinelas,
posso ver através delas,
o mundo em que me reparto.
Por uma entra a luz do sol,
por outra a luz do luar,
por outra a luz das estrelas,
que andam no céu a rolar.
Por esta entra a Via Láctea,
como um vapor de algodão,
por aquela a luz dos homens,
pela outra a escuridão.
Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela da frente a beleza,
que inunda de canto a canto.
Pela quadrada entra a esperança,
de quatro lados iguais,
quatro arestas, quatro vértices,
quatro pontos cardeais.
Pela redonda entra o sonho,
que as vigias são redondas,
e o sonho afaga e embala,
à semelhança das ondas.
Por além entra a tristeza,
por aquela entra a saudade,
e o desejo, e a humildade,
e o silêncio, e a surpresa.
E o amor dos homens, e o tédio,
e o medo, e a melancolia,
e essa fome sem remédio,
a que se chama poesia.
E a inocência, e a bondade,
e a dor própria, e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia,
e a viuvez, e a piedade.
E o grande pássaro branco,
e o grande pássaro negro,
que se olham obliquamente,
arrepiados de medo.
Todos os risos e choros,
todas as fomes e sedes,
tudo alonga a sua sombra,
nas minhas quatro paredes.
Oh janelas do meu quarto,
quem vos pudesse rasgar,
com tanta janela aberta,
falta-me a luz e o ar.
ANTÓNIO GEDEÃO
Rómulo Vasco da Gama de Carvalho (Lisboa, 24 de Novembro de 1906 - Lisboa, 19 de Fevereiro de 1997),português, foi um químico, professor de Físico-Química do ensino secundário no Liceu Pedro Nunes, pedagogo, investigador de História da ciência em Portugal, divulgador da ciência, e poeta sob o pseudónimo de António Gedeão. Pedra Filosofal e Lágrima de Preta são dois dos seus mais célebres poemas.
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
ESPARSA AO DESCONCERTO DO MUNDO

Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que só para mim
Anda o mundo concertado.
Luís Vaz de Camões (Lisboa[?], c. 1524 — Lisboa, 10 de junho de 1580) foi um célebre poeta de Portugal, considerado uma das maiores figuras da literatura em língua portuguesa e um dos grandes poetas do Ocidente.
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
BALADA DO AMOR ATRAVÉS DAS IDADES de Carlos Drummond de Andrade

Eu te gosto, você me gosta
desde tempos imemoriais.
Eu era grego, você troiana,
troiana mas não Helena.
Saí do cavalo de pau
para matar seu irmão.
Matei, brigamos, morremos.
Virei soldado romano,
perseguidor de cristãos.
Na porta da catacumba
encontrei-te novamente.
Mas quando vi você nua
caída na areia do circo
e o leão vinha vindo,
dei um pulo desesperado
e o leão comeu nós dois.
Depois fui pirata mouro,
flagelo da Tripolitânia.
Toquei fogo na fragata
onde você se escondia
da fúria de meu bergantim.
Mas quando ia te pegar
e te fazer minha escrava,
você fez o sinal-da-cruz
e rasgou o peito a punhal...
Me suicidei também.
Depois (tempos mais amenos)
fui cortesão de Versailles
espirituoso e devasso,
Você cismou de ser freira...
Pulei muro de convento
mas complicações políticas
nos levaram à guilhotina.
Hoje sou moço moderno,
remo, pulo, danço, boxo,
tenho dinheiro no banco.
Você é uma loura notável,
boxa, dança, pula, rema.
Seu pai é que não faz gosto.
Mas depois de mil peripécias,
eu, herói da Paramount,
te abraço, beijo e casamos.
Carlos Drummond de Andrade
Itabira, 31 de outubro de 1902 — Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987) foi um poeta, contista e cronista brasileiro.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
"OS MEUS AMIGOS" DE Camilo Castelo Branco

Eu já contei! Vaidades que eu sentia.
Pensei que sobre a terra não havia
Mais ditoso mortal entre os mortais.
Amigos cento e dez, tão serviçais,
Tão zelosos das leis da cortesia,
Que eu, já farto de os ver, me escapulia,
Às suas curvaturas vertebrais.
Um dia adoeci profundamente,
Ceguei. Dos cento e dez, houve um somente
Que não desfez os laços quase rotos.
Que vamos nós (diziam) lá fazer?
Se ele está cego, não nos pode ver…
Que cento e nove impávidos marotos!
Camilo Castelo Branco (1825-1890)
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
"PLENIPOTENCIÁRIO" de Tina Modotti*(1896-1942)
Gosto de me balançar no céuE cair sobre a Europa.
Pular outra vez para cima como uma bola de borracha,
Esticar uma mão até ao telhado do Kremlin,
Roubar uma telha
E atirá-la ao Kaiser:
Porta-te bem;
Vou dividir a lua em três partes,
aquela maior vai ser para ti.
Não a comas depressa demais.
Tina Moddotti de Richey publicado na revista "The Dial", Los Angeles, Maio de 1923
*Tina Modotti (16 (ou 17) de agosto de 1896 - 5 de janeiro de 1942) era uma fotógrafa italiana, modelo, atriz e ativista política revolucionária.
Tina Modotti, terras e tempos : viagem por quatro décadas do século XX. 1ª ed. Lisboa : Câmara Municipal , 2001. , 88 p. : il. ; 25 cm.
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
"ENTARDECER" de Miguel Torga
Longa sutura a unir
A voz do mar
E o silêncio da terra,
A estrema do areal
É um verso branco, táctil, ondulado;
Cansado de brilhar,
O sol desce e coalha
Em acres e vidradas cantarinhas;
Deitada à sobra da sua beleza,
Uma Vénus humana, semi-nua,
Purifica a impureza
A olhar as vagas onde o céu flutua.
Miguel Torga
Nazaré, 13/8/1969
in TORGA, Miguel - Diário XI. Coimbra: s.n., 1973. p. 53
Obra disponível na Biblioteca Municipal de S. João da Madeira
Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Correia Rocha, (São Martinho de Anta, Sabrosa, 12 de Agosto de 1907 — Coimbra, 17 de Janeiro de 1995) foi um dos mais importantes escritores portugueses do século XX, considerado, por alguns, o poeta português mais importante do século XX.
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
"O menino" de António Augusto de Almeida*
Hoje nos nasceu “O Menino”
O seu nome é Jesus;
Nasceu pobre e pequenino;
E por Ele veio a luz.
Nasceu da virgem Maria;
Gerado por Deus no amor;
Mas isto ela sabia;
Que era Ele seu Salvador.
Nas bodas, o vinho ficou de fora;
A Jesus o fez saber;
“Não chegou a minha hora”
“Que queres que faça mulher”
Nela foi feita a vontade de Deus;
Deu-lhe todo o seu ser;
Dizendo aos servos seus;
“Fazei o que Ele vos disser”
O plano por Deus feito;
Funcionou na perfeição;
Maria o levou com jeito;
Mas é Dele a Salvação.
Hoje salvos por Cristo;
Devemos cantar-lhe um hino;
Maria sabia disto;
O redentor é o menino.
A todos queremos honrar;
Um por um na sua vez;
Cada um no seu lugar;
É o plano que Deus fez.
Foi com toda a concordância;
Sabendo que isto é divino;
Maria teve sua importância;
Mas a Glória é do menino.
*Poeta sanjoanense premiado no Concurso "Poesia na Corda", no âmbito da Poesia à Mesa 2010
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
"AO DR. RENATO" DE ADÃO CRUZ
Apenas dois raios da frouxa luz do crepúsculo penetram na janela e brilho os sapatos negros.
No além do quarto, para lá da porta, a densa quietude da paz e do silêncio.
Sobre a cama um corpo sem dobras, estendido de cima a baixo
Nem uma vela nem uma flor nem uma renda.
O mesmo leito onde dormiu os sonos temporários.
O mesmo leito onde o sono temporário se fez definitivo.
A nudez física, de singelo pudor enfiada num longo e magro fato preto.
A nudez da vida, despida de mentira, vaidades e impurezas.
A nudez da morte, limpa de crenças e fantasias.
A nudez da vida e da morte abraçadas, por fim, no esquálido enconto de um
corpo que foi gente.
Gente que a gente não gosta de ver partir, por ser rara,
Por ser um verso do Universo, ou simples protão, mas daqueles que deixam na sua órbita um rasto de luz e dignidade.
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
JOSÉ LUÍS PEIXOTO

o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viuva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.
José Luís Peixoto, in "A Criança em Ruínas"
PEIXOTO, José Luís - A criança em ruínas. 6ª ed. Famalicão : Quasi , 2003. ISBN:978-989-552-168-5
Obra disponível na Biblioteca Municipal de S. João da Madeira
sábado, 16 de outubro de 2010
"REDESCOBRINDO A MINHA ALMA" de Dina Silvério
A sessão de lançamento da obra poética "Redescobrindo a minha alma" de Dina Silvério, foi apresentada pela professora Dra. Ana Paula Santos e animada pelos seus alunos, que declamaram poesia com fundo musical, o que proporcionou às 150 pessoas presentes um agradável serão.
Dina Silvério é natural de Ferragudo - Lagoa, Algarve, mas vive em S. João da Madeira há 13 anos, onde exerce a sua profissão como Assistente Social. Tem duas filhas e dedica-se à poesia como forma de evasão.
Na introdução do livro confessa a sua "vontade louca de tingir as folhas nuas", e que as suas "emoções traduzidas, transformam-se em simples poesia".
"ALMA DE PÁSSARO"
Vim do mar para te ver
E encontrei o sol a chorar.
No vento que corria, andavas perdida,
Sem rumo certo, nem porto seguro,
Onde pudesses atracar.
Vim do mar para te ter,
Mas a lua já te possuíra
E contigo fugira,
Sem dar tempo às estrelas para brilhar.
Vim do mar para te dizer:
Vem comigo, vem viver!...
Mas tu, deambulando, esquecida,
Perguntaste: Que queres de mim, ó vida?!
E foste pelo mundo a correr.
E eu sofrida, fui para o mar,
Para te esquecer!
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
UMA PAISAGEM DA HOLANDA de Nuno Júdice
Há, em todos os poemas de Pessoa, uma paisagemda Holanda. As vacas pastam nos campos; e os moinhos
de Delft rodam sobre elas, com asas, fazendo-as
voar ao longo dos diques. Mas não chega meter
uma vaca no centro do poema, nem espremê-la para que
o seu leite se derrame nos aventais das holandesas
de Vermeer, ajoelhadas para escaparem ao reflexo no
espelho da janela. É preciso pôr rodas nas vacas,
e empurrá-las, como bicicletas, ao longo dos canais
de Amsterdão. “Por que não montas na tua vaca?”
perguntam os barqueiros. E só para os irritar salto
para cima dela, agarro nos chifres, como se
fossem um guiador, e viro-a para direita e para
a esquerda, empurrando os vendedores de queijo
flamengo para o rio, onde as bolas de queijo se
transformam em bóias a que eles se agarram,
flutuando durante horas. O problema é quando
a fome os obriga a comer o queijo; e quanto menos
queijo têm, mais se afundam, até se afogarem,
sob o olhar melancólico das vacas do Pessoa.
quinta-feira, 29 de julho de 2010
"ACORDOS" DE NUNO JÚDICE

ele que trate das suas pessoas, que as leve ao médico,
lhes dê de comer, e as meta na cama, às três,
sobretudo, e já agora às outras, se as houver,
que eu não me meto nisso. Pessoa,
basta-me a que tenho, e que já combinou
tudo com o Pessoa – mas o próprio,
de gabardine para não apanhar com a chuva
oblíqua no fato preto, e opiário no bolso
por causa do pagode marítimo.
Posso combinar outra coisa com o senhor Camões:
Apanhe o avião para a Índia no terminal dos charters,
que são mais baratos; e veja se não fuma às escondidas,
que é proibido; e menos ainda ligue o telemóvel,
que interfere com os instrumentos de voo, mesmo
que precise muito de falar com a Natércia, ou com
a Leonor, ou com a Bárbara, ou qualquer outra das mil
e três que lhe infestam sonetos e canções. O
que eu quero dele é que me traga de Hong-Kong (por onde
tem de passar a caminho de Macau) um Rolex
de imitação – no free-shop é mais barato.
E contigo, meu caro Pessanha,
quero combinar outra coisa: não me peças nada
Para o Wenceslau. Deixa-o estar no Japão, que
está lá muito bem, e o caminho de volta
para a pátria não se recomenda a ninguém. E tu,
ópio à parte, ensina a nossa querida língua a uns
quantos chineses, mesmo que eles troquem os erres
pelos eles. No teu nome, Camilo, é que não
há troca possível. E se fores à gruta do Camões, leva
o piquenique: talvez não queijadas de Sintra
nem pastéis de nata, mas um frango de aviário
e batata frita (esquece o arroz, que é melhor
ao jantar, no chinês do costume).
terça-feira, 27 de julho de 2010
ADÃO CRUZ - "UM GESTO DE SILÊNCIO"











