segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
Nuno Júdice recebeu Prémio Rainha Sofia
Dez anos depois de Sophia de Mello Breyner
Andresen, escritor português recebeu o Prémio Rainha Sofia de Poesia
Ibero-Americana.
O escritor Nuno Júdice recebeu, em Madrid, o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana, no Palácio Real. A entrega da distinção foi feita pela rainha espanhola, na sala das Colunas.
Nuno Júdice, que acabou de publicar um novo livro de poesia,
"Navegação de acaso", é o 23.º distinguido com o galardão e o segundo
português a recebê-lo, dez anos depois de Sophia de Mello Breyner Andresen.
O prémio, atribuído pelo Património Nacional espanhol e pela
Universidade de Salamanca, tem o valor pecuniário de 42.100 euros e reconhece o
conjunto da obra poética de um autor vivo que, pelo seu valor literário,
constitua uma contribuição relevante para o património cultural partilhado pela
comunidade ibero-americana.
O júri considerou o poeta, ensaísta e ficcionista português
como autor de uma poesia "muito elaborada, de um classicismo
depurado", mas, ao mesmo tempo, com um grande compromisso com a realidade,
segundo a agência EFE.
Numa pequena entrevista publicada hoje pelo "El
País", Nuno Júdice apresenta-se como "um operário da escrita".
"Obrigo-me a escrever todos os dias. Escrever é a minha vida. Gosto de
fazê-lo, não vivo disso, mas está na minha maneira de ser", revela o escritor
de 64 anos.
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
Primeira edição de "Os Lusíadas"
O centro de investigação Harry Ransom da Universidade do Texas em Austin possui um dos raros exemplares da primeira edição de Os Lusíadas , impressa em 1572, em Lisboa. Camonianos defendem que este exemplar pertenceu ao poeta português, sendo por isso conhecido como o “de Camões”.
Ler e examinar um dos raros exemplares sobreviventes da primeira
edição de Os Lusíadas – poema épico de Luís de Camões
(1524?-1580) –, impressa em 1572, é uma cerimónia quase religiosa, como se
tivéssemos ido parar a uma cena do filme O
Nome da Rosa .
Esta experiência pode ser realizada
no Harry Ransom Center (HRC), Centro de Investigação de Humanidades no campus da Universidade do Texas em Austin (UT
Austin), onde está o exemplar que dizem ter pertencido ao próprio Camões e é um
dos mais importantes entre os 34 que existem espalhados por três continentes.
Antes mesmo de entrar no edifício do
HRC, o visitante já tem, do lado de fora, uma ideia do incrível acervo que o
edifício abriga. Nas fachadas de vidro estão impressas várias imagens –
retratos de escritores e textos dactilografados – que evocam o arquivo. Lá
dentro, na biblioteca, no segundo andar do edifício, quem quiser ver a primeira
edição de Os Lusíadas tem de criar uma conta de
investigação, na página Web do HRC, e assistir a um vídeo de dez minutos
para aprender como se devem manusear livros raros e quais os procedimentos de
segurança.
Qualquer pessoa pode ver a obra, mas estes requisitos são obrigatórios para se
ter acesso à sala de visualização. É também recomendável contactar a
instituição com 24 horas de antecedência, porque o livro está guardado num
cofre.
Depois de feita a requisição da obra,
uma das bibliotecárias aproxima-se, segurando com as duas mãos uma caixa
vermelha de capa dura. Com muito cuidado desata os laços, abre a caixa, põe-na
sobre a mesa, retira o livro e pousa-o sobre suportes revestidos de veludo. O
visitante pode então folhear o livro, tentar ler as marginálias (comentários
escritos à mão nas margens), com a ajuda de duas lupas, identificando as
diferenças ortográficas em relação aos dias de hoje. Céu era ceo,
muito era muy, e as palavras hoje terminadas em
ão acabavam em am. Não era nam.
A experiência de ver o exemplar de Os Lusíadas, considerado o mais importante dos que existem
por conter manuscritos de uma testemunha ocular da morte de Luís de Camões, é
entendida por alguns como um mapa literário para regressar ao passado. A
jornalista brasileira Heloísa Aruth Sturm, quando era estudante de mestrado na
Universidade do Texas, em 2010, analisou este exemplar durante um semestre para
a disciplina de História do Livro. Todos os alunos tinham de escolher um livro raro,
analisá-lo e escrever um artigo académico. Interessada em literatura colonial,
Heloísa soube desta cópia de Os Lusíadas através do seu orientador, Ivan
Teixeira, investigador brasileiro e na altura professor na UT Austin. A aluna
ia pelo menos uma vez por semana ao HRC para analisar Os Lusíadas. Tinha medo de danificar o livro, por isso
usava sempre luvas para o folhear. Sentia-se “num convento em pleno século
XVI”. A paranóia era tão grande, diz ela, que “às vezes, até tomava cuidado
para não ficar respirando em cima do livro”.
A edição “de Camões”
No entanto, não são muitos os que vivem esta experiência literária de Heloísa.
Richard W. Oram, curador de livros raros do Harry Ransom Center, desde 1991,
diz que este exemplar de Os Lusíadas raramente é requisitado. Porém,
a sua aquisição pela Universidade do Texas tem sido de extrema utilidade
para produção académica mundial sobre a obra de Camões.
K. David Jackson, director dos
estudos de Português, na Universidade de Yale, foi professor na Universidade do
Texas em Austin, entre 1974 e 1993. Conta ao PÚBLICO, por email, que a
universidade já tinha adquirido o livro quando ele foi contratado por esta
instituição texana. E quando deu um seminário no Harry Ransom Center usou o
livro como recurso. Na altura, mostrou-o à filóloga italiana e especialista em
literatura medieval portuguesa Luciana Stegagno Picchio (1920-2008) e “ela
ficou fascinada” com os comentários escritos à mão nas margens do livro, a
marginália. Em 2003, o investigador publicou um CD-ROM, Luís
de Camões e a Primeira Edição d’Os Lusíadas, 1572, com 29 exemplares da primeira edição,
de várias bibliotecas internacionais.
sexta-feira, 15 de novembro de 2013
"A cor das vogais" de Virgílio Alberto Vieira
A cor das vogais
Com as cores do arco-íris,
Fez-se o A amor-perfeito.
Raminho de estrelas,
Vou-te pôr ao peito!
Com as cores do arco-íris,
Fez-se o E estrela distante.
Luzeirinho de oiro,
Guia-me um instante!
Com as cores do arco-íris,
Fez-se o I ilha no mar.
Barquinho de espuma,
Quero navegar!
Com as cores do arco-íris,
Fez-se o O ocasião.
Princesa da ilha,
Dá-me a tua mão!
Com as cores do arco-íris,
Fez-se o U único amor.
Cores do arco-íris,
Qual a vossa cor!
Virgílio Alberto Vieira
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sexta-feira, 8 de novembro de 2013
Ode Marítima, de Álvaro de Campos. Leitura integral por Pedro Lamares.
Ode Marítima, de Álvaro de Campos.
Leitura integral por Pedro Lamares.
14 de Novembro de 2013, 21h45m, no Passos Manuel.
Depois de, em Março de 2010, ter lido pela primeira vez a Ode Marítima no Centro Cultural de Belém, inserido na programação da Festa da Poesia a convite de António Mega Ferreira, Pedro Lamares volta a pegar num dos grandes textos da poesia portuguesa para apresentar a leitura desta obra particularmente desafiante, desta vez no Porto. O espaço escolhido foi o Passos Manuel, com a sua história intimamente ligada à cultura cinéfila da cidade do Porto e, mais recentemente, transformado também em sala de espectáculos com programação regular quer na área do cinema quer nas artes performativas. Ao contrário do que aconteceu em Lisboa, onde o poema foi sujeito a alguns cortes, desta vez será apresentada uma leitura integral, com duração aproximada de uma hora.
Morada - R. Passos Manuel, 137, Porto.
Telefone - 222 058 351
Horário da Bilheteira
3ª a Sábado: 9h -12h // 14h30 - 18h
4ª a Sábado: 9h -12h // 14h30 - 18h // 22h - 02h
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quarta-feira, 16 de outubro de 2013
"Elegia Desesperada" de Vinicius de Moraes (1913-1980)
Vinicius de Moraes, poeta, compositor, amante, viveu intensamente. Homem de excessos, nas mulheres e no alcool, casou-se nove vezes, fez centenas de canções e espetáculos e é um dos símbolos da Música Popular Brasileira.
Este mês faria 100 anos, mas já era eterno quando morreu.
Meu Senhor, tende piedade dos que andam de bonde
E sonham no longo percurso com automóveis, apartamentos...
Mas tende piedade também dos que andam de automóvel
Quantos enfrentam a cidade movediça de sonâmbulos, na direção.
Tende piedade das pequenas famílias suburbanas
E em particular dos adolescentes que se embebedam de domingos
Mas tende mais piedade ainda de dois elegantes que passam
E sem saber inventam a doutrina do pão e da guilhotina
Tende muita piedade do mocinho franzino, três cruzes, poeta
Que só tem de seu as costeletas e a namorada pequenina
Mas tende mais piedade ainda do impávido forte colosso do esporte
E que se encaminha lutando, remando, nadando para a morte.
Tende imensa piedade dos músicos de cafés e de casas de chá
Que são virtuosos da própria tristeza e solidão
Mas tende piedade também dos que buscam o silêncio
E súbito se abate sobre eles uma ária da Tosca.
Não esqueçais também em vossa piedade os pobres que enriqueceram
E para quem o suicídio ainda é a mais doce solução
Mas tende realmente piedade dos ricos que empobreceram
E tornam-se heróicos e à santa pobreza dão um ar de grandeza.
Tende infinita piedade dos vendedores de passarinhos
Quem em suas alminhas claras deixam a lágrima e a incompreensão
E tende piedade também, menor embora, dos vendedores de balcão
Que amam as freguesas e saem de noite, quem sabe onde vão...
Tende piedade dos barbeiros em geral, e dos cabeleireiros
Que se efeminam por profissão mas são humildes nas suas carícias
Mas tende maior piedade ainda dos que cortam o cabelo:
Que espera, que angústia, que indigno, meu Deus!
Tende piedade dos sapateiros e caixeiros de sapataria
Quem lembram madalenas arrependidas pedindo piedade pelos sapatos
Mas lembrai-vos também dos que se calçam de novo
Nada pior que um sapato apertado, Senhor Deus.
Tende piedade dos homens úteis como os dentistas
Que sofrem de utilidade e vivem para fazer sofrer
Mas tente mais piedade dos veterinários e práticos de farmácia
Que muito eles gostariam de ser médicos, Senhor.
Tende piedade dos homens públicos e em particular dos políticos
Pela sua fala fácil, olhar brilhante e segurança dos gestos de mão
Mas tende mais piedade ainda dos seus criados, próximos e parentes
Fazei, Senhor, com que deles não saiam políticos também.
E no longo capítulo das mulheres, Senhor, tenha piedade das mulheres
Castigai minha alma, mas tende piedade das mulheres
Enlouquecei meu espírito, mas tende piedade das mulheres
Ulcerai minha carne, mas tende piedade das mulheres!
Tende piedade da moça feia que serve na vida
De casa, comida e roupa lavada da moça bonita
Mas tende mais piedade ainda da moça bonita
Que o homem molesta — que o homem não presta, não presta, meu Deus!
Tende piedade das moças pequenas das ruas transversais
Que de apoio na vida só têm Santa Janela da Consolação
E sonham exaltadas nos quartos humildes
Os olhos perdidos e o seio na mão.
Tende piedade da mulher no primeiro coito
Onde se cria a primeira alegria da Criação
E onde se consuma a tragédia dos anjos
E onde a morte encontra a vida em desintegração.
Tende piedade da mulher no instante do parto
Onde ela é como a água explodindo em convulsão
Onde ela é como a terra vomitando cólera
Onde ela é como a lua parindo desilusão.
Tende piedade das mulheres chamadas desquitadas
Porque nelas se refaz misteriosamente a virgindade
Mas tende piedade também das mulheres casadas
Que se sacrificam e se simplificam a troco de nada.
Tende piedade, Senhor, das mulheres chamadas vagabundas
Que são desgraçadas e são exploradas e são infecundas
Mas que vendem barato muito instante de esquecimento
E em paga o homem mata com a navalha, com o fogo, com o veneno.
Tende piedade, Senhor, das primeiras namoradas
De corpo hermético e coração patético
Que saem à rua felizes mas que sempre entram desgraçadas
Que se crêem vestidas mas que em verdade vivem nuas.
Tende piedade, Senhor, de todas as mulheres
Que ninguém mais merece tanto amor e amizade
Que ninguém mais deseja tanto poesia e sinceridade
Que ninguém mais precisa tanto alegria e serenidade.
Tende infinita piedade delas, Senhor, que são puras
Que são crianças e são trágicas e são belas
Que caminham ao sopro dos ventos e que pecam
E que têm a única emoção da vida nelas.
Tende piedade delas, Senhor, que uma me disse
Ter piedade de si mesma e da sua louca mocidade
E outra, à simples emoção do amor piedoso
Delirava e se desfazia em gozos de amor de carne.
Tende piedade delas, Senhor, que dentro delas
A vida fere mais fundo e mais fecundo
E o sexo está nelas, e o mundo está nelas
E a loucura reside nesse mundo.
Tende piedade, Senhor, das santas mulheres
Dos meninos velhos, dos homens humilhados — sede enfim
Piedoso com todos, que tudo merece piedade
E se piedade vos sobrar, Senhor, tende piedade de mim!
A poesia acima foi extraída do livro "Antologia Poética", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág.73.
Marcus Vinicius da Cruz e Mello Moraes, também conhecido como Vinícius de Moraes e o nicknamed O Poetinha, nasceu no Rio de Janeiro.
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Elegia desesperada. Vinicius de Moraes
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
ANTÓNIO RAMOS ROSA (1924-2013)
António Ramos Rosa morreu nesta segunda-feira, ao início da tarde.
Vencedor do Prémio Pessoa
em 1988, António Ramos Rosa é um exemplo de entrega radical à escrita
como talvez não haja outro na poesia portuguesa do século XX.
Poeta, ensaísta e tradutor, nasceu em Faro, em 1924. A sua obra poética, iniciada em 1958 com a publicação de O Grito Claro, abarca quase 80 títulos, não contando já com antologias, compilações e livros escritos a meia com outros autores.
O poeta António Ramos Rosa foi homenageado na Campanha Poesia à Mesa 2004
António Ramos Rosa
Um outro sol, um outro pão
"Nunca se te abriu o pão da mesa
um pão limpo
uns olhos de mulher de água tranquila?"
ROSA, António RamosHorizonte imediato. Lisboa: Publicações D. Quixote, 1974
GRITO CLARO
De escadas insubmissas
de fechaduras alerta
de chaves submersas
e roucos subterrâneos
onde a esperança enlouqueceu
de notas dissonantes
dum grito de loucura
de toda a matéria escura
sufocada e contraída
nasce o grito claro
ANTÓNIO RAMOS ROSA (1924-2013)
Viagem Através duma Nebulosa (1960)
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