segunda-feira, 8 de setembro de 2014

PEQUENA ELEGIA DE SETEMBRO de Eugénio de Andrade










Pequena Elegia de Setembro

Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.

Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.

Que música escuta tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,
Dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.

Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.

Eugénio de Andrade

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

CONFIDENCIAL de Miguel Torga




Confidencial

Não me perguntes, porque nada sei
Da vida,
Nem do amor,
Nem de Deus,
Nem da morte.
Vivo,
Amo,
Acredito sem crer,
E morro, antecipadamente
Ressuscitando.
O resto são palavras
Que decorei
De tanto as ouvir.
E a palavra
É o orgulho do silêncio envergonhado.
Num tempo de ponteiros, agendado,
Sem nada perguntar,
Vê, sem tempo, o que vês
Acontecer.
E na minha mudez
Aprende a adivinhar
O que de mim não possas entender.


Miguel Torga



                                                                                

quinta-feira, 24 de julho de 2014

José Gil premiado por livro sobre o tema dos heterónimos em Fernando Pessoa.

José Gil DANIEL ROCHA

José Gil distinguido com Grande Prémio de Ensaio Eduardo Prado Coelho

O livro de José Gil,  Cansaço, Tédio, Desassossego  (edição Relógio d’Água, 2013) foi distinguido com o Grande Prémio de Ensaio Eduardo Prado Coelho, promovido pela Associação Portuguesa de Escritores (APE) e pela Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão.

A decisão, divulgada num comunicado da APE desta segunda-feira, foi tomada por um júri constituído por António Pedro Pita, Helena Vasconcelos e João Barrento (este tendo sido distinguido em 2011).

O prémio, no valor de 7.500 euros, vai ser entregue ao ensaísta, em Famalicão, em data ainda a anunciar.

Cansaço, Tédio, Desassossego é um livro composto por quatro ensaios sobre o tema dos heterónimos em Fernando Pessoa, um universo ficcional cujo centenário do “nascimento” foi assinalado este ano, aquando da passagem do “dia triunfal” de 8 de Março – relativo ao ano de 1914, aquele que Pessoa, segundo carta enviada a Adolfo Casais Monteiro, indicou como sendo a data precisa do nascimento dos heterónimos, através da figura de Alberto Caeiro.

Numa recensão crítica a Cansaço, Tédio, Desassossego publicada no suplemento Ípsilon, o crítico e colaborador do PÚBLICO António Guerreiro nota que, no seu livro, José Gil “vai mesmo directo à questão do que são os heterónimos ('Qual o estatuto – ficcional, literário, ontológico – de que gozam?'), mostrando que, em Pessoa, toda a passagem do plano da vida para o plano da literatura supõe a noção de 'vida heteronímica', constituída por afectos, visões, sensações, etc. E aí abre-se um vasto campo a explorar”.

No ainda curto historial do Grande Prémio de Ensaio Eduardo Prado Coelho, que é integralmente patrocinado pela Câmara de Famalicão, José Gil sucede a Rosa Maria Martelo, João Barrento, Manuel Gusmão e Vítor Manuel Aguiar e Silva, os anteriores distinguidos.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Fernando Guimarães vence primeiro Grande Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes


«O poeta Fernando Guimarães venceu a primeira edição do Grande Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes concedido pela Associação Portuguesa de Escritores e pela Câmara de Amarante.

O júri constituído por António Mega Ferreira, Fernando Martinho e José Manuel Mendes decidiu, por unanimidade, atribuir o galardão ao livro Os Caminhos Habitados editado pela Afrontamento.» Ler na Renascença.

«"Desde o título, este conjunto de textos regressa à energia dos tópicos nucleares do seu percurso, a habitação do ser, o saturnianismo dos dias, sempre elaborado com uma exigência formal e uma concisão e densidade raras na poesia portuguesa contemporânea", lê-se no texto elaborado pelo júri.

A primeira edição do Grande Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes foi coordenada pela APE e patrocinada pela Câmara Municipal de Amarante e, "a título excecional, foram incluídas as obras saídas nos anos de 2011, 2012 e 2013".

Fernando Guimarães, de 86 anos, natural do Porto, é poeta, ensaísta, tradutor e foi já distinguido com outros dois galardões atribuídos pela APE, designadamente pelas suas obras O Anel Débil (1992) e Na Voz de Um Nome (2006).» Ler no iOnline.

«O valor deste Grande Prémio é no montante de € 12.500 (doze mil e quinhentos euros).» Ler  no Local.pt.
Fontehttp://blogtailors.com/fernando-guimaraes-vence-primeiro-7452477

sexta-feira, 18 de julho de 2014

"Não gosto tanto" de Adília Lopes

Não gosto tanto 

Não gosto tanto
de livros
como Mallarmé
parece que gostava
eu não sou um livro
e quando me dizem
gosto muito de seus livros
gostava de poder dizer
como o poeta Cesariny
olha
eu gostava
é que tu gostasses de mim
os livros não são feitos
de carne e osso
e quando tenho
vontade de chorar
abrir um livro
não me chega
preciso de um abraço
mas graças a Deus
o mundo não é um livro
e o acaso não existe
no entanto gosto muito
de livros
e acredito na Ressurreição
dos livros
e acredito que no Céu
haja bibliotecas
e se possa ler e escrever.


(De Florbela Espanca Espanca, ou “Antologia”, pela Cosac&Naify).


terça-feira, 8 de julho de 2014

"IRA" DE AMALIA BAUTISTA






Ira

Ninguna más injusta por desproporcionada
que la ira de Dios
contra el gesto pueril de los amantes.
Sólo era una manzana
y el deseo de ser osados, libres, buenos.


Amália Bautista (1962- ) 

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Panteão Nacional abre esta quarta-feira as portas à grandeza poética e cívica de Sophia


Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) entra esta quarta-feira no Panteão Nacional, quando se cumprem dez anos sobre a sua morte e se comemora o 40.º aniversário do 25 de Abril, esse “dia inicial inteiro e limpo”, como ela própria o descreveu naquele que é provavelmente o mais belo dos poemas dedicados à revolução dos cravos.

A ideia de trasladar os restos da escritora para o Panteão, na Igreja de Santa Engrácia, surgiu publicamente em Novembro do ano passado com um artigo que o escritor José Manuel dos Santos, ex-assessor cultural de Mário Soares e Jorge Sampaio, assinou no PÚBLICO. Ainda no final de 2013, por iniciativa dos deputados Marco Perestrello (PS) e Nuno Encarnação (PSD), a proposta chegou ao Parlamento, onde veio a ser aprovada por unanimidade em Fevereiro deste ano.




























Revolução

Como casa limpa 
Como chão varrido 
Como porta aberta 

Como puro início 
Como tempo novo 
Sem mancha nem vício 

Como a voz do mar 
Interior de um povo 

Como página em branco 
Onde o poema emerge 

Como arquitectura 
Do homem que ergue 
Sua habitação 

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"


segunda-feira, 30 de junho de 2014

"La foto" de Amália Bautista



La foto



Hazme una de esas fotos que tu haces,

empaña el objetivo, desenfoca

lo justo y mide mal la luz. Ahora

que está cayendo el día no es difícil

salir favorecida. Que los rasgos

se suavicen, que todas las arrugas

del alma y del contorno de los ojos

desaparezcan y que quien me mire

piense que puedo merecer la pena.

Y sobre todo, que lo que emocione

de esa foto no sea yo, que salgo

allí, sino tus ojos que la han hecho.

Amália Bautista (1962- )  - Luz del medio día. Antología poética, editado por la Universidad de las Américas Puebla, Puebla, México, 2007.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Poema "Aos amigos" de Herberto Helder


AOS AMIGOS

Amo devagar os amigos que são tristes
com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem
e estão sentados,
fechando os olhos,
com os livros atrás a arder
para toda a eternidade.

Não os chamo,
e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De Paixão.


quarta-feira, 21 de maio de 2014

A quarta edição do Prémio Bissaya Barreto de Literatura para a Infância distinguiu um livro de poesia para crianças


A quarta edição do Prémio Bissaya Barreto de Literatura para a Infância distinguiu um livro de poesia para crianças. Pequeno Livro das Coisas foi escrito por João Pedro Mésseder, ilustrado por Rachel Caiano e editado pela Caminho em 2012.
“O poeta oferece uma obra que desafia o jovem leitor/ouvinte para a contemplação do mundo e para a formulação de perguntas que fortalecem os elos entre crianças e adultos”, justificou o júri: os investigadores Rui Veloso e Leonor Riscado e, a representar a Fundação Bissaya Barreto, Lúcia Santos.
João Pedro Mésseder é o pseudónimo literário do escritor e professor universitário José António Gomes, que disse ao PÚBLICO ter ficado particularmente satisfeito por o prémio ter sido atribuído a uma obra de poesia, “género minoritário no universo do livro infantil”.

A sombra quieta


Era uma vez uma sombra
que não parava de estar quieta.
Quanto mais quieta estava
mais o pobre corpo
se mexia
e saltava, esbracejava, corria.
Tomado pelo medo,
o corpo acabou por fugir
daquele sinistro lugar.
Nunca mais ninguém o viu.
E a sombra?
Ainda lá está.
Ali, naquele lugar.
(Pág. 9)

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Noites poéticas mensais em São João da Madeira





NOITES POÉTICAS EM SÃO JOÃO DA MADEIRA

PORQUÊ “NOITES POÉTICAS” NOS CAFÉS?

O café – ou cafetaria – sempre foi, sobretudo na Europa, ponto de encontro de pessoas de diferentes correntes de pensamento, culturas, sexos, raças, nacionalidades, idades e religiões. A Arte e o Pensamento se cruzavam com o convívio e a bebida que deu nome ao estabelecimento, que fez da tertúlia um evento regular e característico de países, onde a liberdade e a democracia são tão importantes como a mais básica das necessidades de cada ser vivo. Tanto é que, o famoso ensaísta George Steiner, durante uma palestra no Nexus Institut de Amesterdão, durante a presidência holandesa da União Europeia, em 2004, afirmou – e passo a citar – “enquanto existirem cafetarias a “ideia de Europa” terá conteúdo.”
TRAZER A CULTURA PARA ONDE O POVO SE JUNTA.
Levando mais longe esta citação, afirmando que, enquanto existirem estabelecimentos públicos, como os cafés ou os bares, onde pessoas possam reunir-se livremente, debaterem e celebrarem o Pensamento e a Cultura, a Liberdade e a condição humanas terão mais valor e conteúdo, dois escritores e poetas de São João da Madeira – Tiago Moita e Edmundo Silva – resolveram tomar a iniciativa de trazer de volta essa tradição – que já existe em muitas cidades como é o caso de Lisboa e do Porto - (Os primeiros que tentaram mantê-la foram o Art7 <Bar (2007-2010) e o Inversus Bar (2011) de Angel Roberto) de fazer noites poéticas mensais nos cafés de São João da Madeira, com o intuito de, não só criar hábitos de ler e ouvir Poesia como cruzar outras artes através dela e dinamizar a Cultura, o associativismo, o sentimento de comunidade e a cidadania para fora dos espaços públicos culturais do município que, desde já, têm feito um excelente trabalho em prol do entretenimento e do desenvolvimento cultural do concelho e da região, mas, no nosso entender, por si só, não chega.
O sonho, o pensamento e a criação precisam de respirar em espaços onde a liberdade é um hábito e nunca um acontecimento social anual.
A primeira noite poética mensal, denominada “POESIA À SOLTA!”, ocorrerá no Neptúlia Snack-Bar (Avenida da Misericórdia, 171) no dia 20 de Maio, terça-feira, a partir das 21H30, e decorrerá todas as terceiras terças-feiras de cada mês.
A segunda noite poética mensal, denominada “UM CAFÉ COM POESIA”, ocorrerá na CONFEITARIA COLMEIA (Praça Luís Ribeiro, 155) no dia 3 de Junho, terça-feira, a partir das 21H30, e decorrerá todas as primeiras terças-feiras de cada mês.


As noites poéticas serão coordenadas pelos escritores e poetas Tiago Moita e Edmundo Silva e são apoiadas pela Junta de Freguesia de São João da Madeira e diversas personalidades e associações cívicas do concelho.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

"LUGARES COMUNS" DE ANA LUÍSA AMARAL

Entrei em Londres
num café manhoso (não é só entre nós
que há cafés manhosos, os ingleses também
e eles até tiveram mais coisas, agora
é só a Escócia e um pouco da Irlanda e aquelas
ilhotazitas, mas adiante)

Entrei em Londres
num café manhoso, pior ainda que um nosso bar
de praia (isto é só para quem não sabe
fazer uma pequena ideia do que eles por lá têm), era
mesmo muito manhoso,
não é que fosse mal intencionado, era manhoso
na nossa gíria, muito cheio de tapumes e de cozinha
suja. Muito rasca.

Claro que os meus preconceitos todos
de mulher me vieram ao de cima, porque o café
só tinha homens a comer bacon e ovos e tomate
(se fosse em Portugal era sandes de queijo),
mas pensei: Estou em Londres, estou
sozinha, quero lá saber dos homens, os ingleses
até nem se metem como os nossos,
e por aí fora...

E lá entrei no café manhoso, de árvore
de plástico ao canto.
Foi só depois de entrar que vi uma mulher
sentada a ler uma coisa qualquer. E senti-me
mais forte, não sei porquê mas senti-me mais forte.
Era uma tribo de vinte e três homens e ela sozinha e
depois eu

Lá pedi o café, que não era nada mau
para café manhoso como aquele e o homem
que me serviu disse: There you are, love.
Apeteceu-me responder: I’m not your bloody love ou
Go to hell ou qualquer coisa assim, mas depois
pensei: Já lhes está tão entranhado
nas culturas e a intenção não era má e também
vou-me embora daqui a pouco, tenho avião
quero lá saber

E paguei o café, que não era nada mau,
e fiquei um bocado assim a olhar à minha volta
a ver a tribo toda a comer ovos e presunto
e depois vi as horas e pensei que o táxi
estava a chegar e eu tinha que sair.
E quando me ia levantar, a mulher sorriu
como quem diz: That’s it

e olhou assim à sua volta para o presunto
e os ovos e os homens todos a comer
e eu senti-me mais forte, não sei porquê,
mas senti-me mais forte

e pensei que afinal não interessa Londres ou nós,
que em toda a parte
as mesmas coisas são


Ana Luísa Amaral 
(1956-)

quarta-feira, 30 de abril de 2014

"blues da morte de amor" de Vasco Graça Moura

já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida,
mas afinal não morri, como se vê, ah, não,
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.

a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah, não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing, minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.

há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes, uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete: — morrer ou não morrer, darling, ah, sim.

Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"

 (1942-2014)
 Escritor, poeta, ensaísta, tradutor e político

segunda-feira, 28 de abril de 2014

SONETO DO AMOR E DA MORTE de Vasco Graça Moura


quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.

Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"

(1942-2014)
 Escritor, poeta, ensaísta, tradutor e político

quinta-feira, 24 de abril de 2014

"25 de Abril" de Adão Cruz

Um cravo vermelho, cristal de vida no céu de chumbo, cada dia um mundo limpo e perfumado,
graças a ti flor da minha idade.

Caminho da esperança às portas da cidade, todo o mel e todos os frutos ali à mão.

Graças a ti cravo vermelho que venceste a solidão, veio o tempo ao nosso encontro e a manhã
despertou agitando as árvores.

E a noite se fez de estrelas que desceram aos cantos do jardim.

Um cravo vermelho e quente, mais que tudo amando a vida em qualquer língua entendida.

O mundo tinha o sabor de uma maçã, e os olhos inacabados eram cravos vermelhos.

Não havia cárceres nem torturas, apenas o calor de uma fogueira na praça do entusiasmo, e
uma jovem mulher dormindo um sono de criança nos telhados da revolução.

O seu rosto era uma nuvem dourada pelo sol e pela lua, os cabelos trigueiros uma seara e nos lábios a canção de Abril que encheu a rua.

Adão Cruz (1937- )
(médico cardiologista, poeta, pintor)

quinta-feira, 17 de abril de 2014

QUERIA QUE OS PORTUGUESES de Agostinho da Silva

Queria que os portugueses
tivessem senso de humor
e não vissem como génio
todo aquele que é doutor

sobretudo se é o próprio
que se afirma como tal
só porque sabendo ler
o que lê entende mal

todos os que são formados
deviam ter que fazer
exame de analfabeto
para provar que sem ler

teriam sido capazes
de constituir cultura
por tudo que a vida ensina
e mais do que livro dura

e tem certeza de sol
mesmo que a noite se instale
visto que ser-se o que se é
muito mais que saber vale

até para aproveitar-se
das dúvidas da razão
que a si própria se devia
olhar pura opinião

que hoje é uma manhã outra
e talvez depois terceira
sendo que o mundo sucede
sempre de nova maneira

alfabetizar cuidado
não me ponham tudo em culto
dos que não citar francês
consideram puro insulto

se a nação analfabeta
derrubou filosofia
e no jeito aristotélico
o que certo parecia

deixem-na ser o que seja
em todo o tempo futuro
talvez encontre sozinha
o mais além que procuro. 



Agostinho da Silva, in 'Poemas'
1906-1994 
(Filósofo, poeta e ensaísta português)