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quarta-feira, 30 de setembro de 2015

"ARTE POÉTICA" DE ANTÓNIO RAMOS ROSA

 
Se o poema não serve para dar o nome às coisas
outro nome e ao seu silêncio outro silêncio,

se não serve para abrir o dia
em duas metades como dois dias resplandecentes

e para dizer o que cada um quer e precisa
ou o que a si mesmo nunca disse.

Se o poema não serve para que o amigo ou a amiga
entrem nele como numa ampla esplanada
e se sentem a conversar longamente com um copo de vinho na mão
sobre as raízes do tempo ou o sabor da coragem
ou como tarda a chegar o tempo frio.

Se o poema não serve para tirar o sono a um canalha
ou ajudar a dormir o inocente
se é inútil para o desejo e o assombro,
para a memória e para o esquecimento.

Se o poema não serve para tornar quem o lê
num fanático
que o poeta então se cale.

                                                      António Ramos Rosa, in Revista Sílex, 1980

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

ANTÓNIO RAMOS ROSA (1924-2013)

António Ramos Rosa morreu nesta segunda-feira, ao início da tarde.
Vencedor do Prémio Pessoa em 1988, António Ramos Rosa é um exemplo de entrega radical à escrita como talvez não haja outro na poesia portuguesa do século XX.
Poeta, ensaísta e tradutor, nasceu em Faro, em 1924. A sua obra poética, iniciada em 1958 com a publicação de O Grito Claro, abarca quase 80 títulos, não contando já com antologias, compilações e livros escritos a meia com outros autores.



O poeta António Ramos Rosa foi homenageado na Campanha Poesia à Mesa 2004


 António Ramos Rosa
Um outro sol, um outro pão
"Nunca se te abriu o pão da mesa
um pão limpo
uns olhos de mulher de água tranquila?"

ROSA, António RamosHorizonte imediato. Lisboa: Publicações D. Quixote, 1974



GRITO CLARO


De escadas insubmissas
de fechaduras alerta
de chaves submersas
e roucos subterrâneos
onde a esperança enlouqueceu
de notas dissonantes
dum grito de loucura
de toda a matéria escura
sufocada e contraída
nasce o grito claro



ANTÓNIO RAMOS ROSA (1924-2013)
Viagem Através duma Nebulosa (1960)