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quarta-feira, 13 de julho de 2016

"EUROPA" DE FILIPA LEAL



Apontas para o rosto sarcástico do sol de Inverno  
e disparas. Há tantos meses que não chove – reparaste?
É o próprio céu a desistir de ti. E mesmo assim tu disparas, só sabes disparar.
Estás enganada, Europa. Envelheceste mal e perdeste a humildade.  
Não é contra o sarcasmo que disparas, não é contra o Inverno,
nem sequer contra o insólito, contra o desespero.  
Tu disparas contra a luz.  
Podes atirar-nos tudo à cara, Europa: bombas, palavras, relatórios de contas. Podes até atirar-nos à cara um deputado, uma cimeira.
Mas os teus filhos não querem gravatas. Os teus filhos 
querem paz.
Os teus filhos não querem que lhes dês a sopa. Os teus filhos querem trabalhar.  
Há tantos meses que não chove – reparaste?  
A terra está seca. Nem abraçados à terra conseguimos dormir.  
Enquanto te escrevo, tu continuas a fazer contas, Europa.  
Quem deve. Quem empresta. Quem paga.
Mas os teus filhos têm fome, têm sono. Os teus filhos têm medo do escuro.  
Os teus filhos precisam que lhes cantes uma canção, que os vás 
adormecer.
Eu acreditei em ti e tu roubaste-me o futuro e o dos meus irmãos.  
Se estamos calados, Europa, é apenas porque, contrários ao 
teu gesto,
nós não queremos disparar. 

in LEAL, Filipa - Vem à quinta-feira.1ª ed. Porto: Assírio & Alvim, 2016. 


Filipa Leal (*1979 Porto, Portugal) formou-se em Jornalismo em Londres e concluiu o mestrado em Estudos Portugueses e Brasileiros no Porto. É jornalista cultural e integra a equipa da Câmara Clara, na RTP2. Tem feito leituras de poesia em diversos locais em Portugal (Centro Cultural de Belém, Fundação Eugénio de Andrade, Biblioteca Almeida Garrett, Casa Fernando Pessoa, Palácio de Belém, entre outros), e participado em vários encontros internacionais de escritores, nomeadamente na Galiza, em Pisa, Zagreb e Bristol. Alguns dos seus poemas foram já traduzidos para espanhol, croata, turco e búlgaro. Está representada em diversas antologias, em Portugal e no estrangeiro. Integra, desde 2004, os Seminários de Tradução Colectiva de Poesia Viva da Fundação da Casa de Mateus. (FONTE: Wikipedia)

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

ODE LOUCA de Filipa Leal


















ODE LOUCA

Todos os homens têm o seu rio.
Lamentam-no sentados no interior das casas
de interior e como o poeta que escreve a lápis
apagam a memória com a sua água.
Os rios abandonam os homens que envelhecem
Longe da infância, e eles choram
o reflexo absurdo na distância.
Por vezes, enlouquecem os rios, os homens,
Os poetas nas suas palavras repetidas
que buscam uma ode que lhes diga
a textura. Todos procuram o mesmo:
um lugar de  água mais limpa
ou um espelho que não lhes negue
a hipótese do reflexo.
O rio sofre mais do que o homem,
o poeta,
porque dele se espera que nos devolva
a imagem de tudo, menos de si próprio.
Todos os rios têm o seu narciso,
mas poucos, muitos poucos,
O simples reflexo das suas águas.

Filipa Leal in A Cidade Líquida e Outras Texturas

quinta-feira, 19 de março de 2009

Filipa Leal na Biblioteca

A escritora e jornalista Filipa Leal, que integra o grupo de homenageados desta edição da Poesia à Mesa, realizará uma leitura do seu mais recente livro A Inexistência de Eva, hoje, quinta-feira, às 21h30, na Biblioteca Municipal.

Filipa Leal nasceu no Porto em 1979.
Jornalista cultural, foi editora do suplemento literário do jornal O Primeiro de Janeiro.
Colabora assiduamente no ciclo Quintas de Leitura do Teatro do Campo Alegre e tem feito leituras de poesia em diversos locais do país (Serralves, Fundação Eugénio de Andrade, Biblioteca Almeida Garrett, Casa das Artes de Famalicão, Casa Fernando Pessoa, entre outros).

Tem participado em vários encontros internacionais de escritores, nomeadamente na Galiza, em Pisa, Zagreb e Bristol, e alguns dos seus poemas foram já traduzidos, nomeadamente para croata e búlgaro.

Tem colaborações dispersas nas revistas Egoísta e MeaLibra, e nas antologias «Pathos», do colectivo A Musa ao Espelho, e «Uma Luz de Papel», publicada nos 95 anos da Livraria Académica, entre outras. É colaboradora permanente da revista Um Café, distribuída nos cafés do Porto.

O Bando dos Gambozinos musicou um dos seus poemas, agora disponível no álbum «Com Quatro Pedras na Mão». Integra, desde 2004, os Seminários de Tradução Colectiva de Poesia Viva da Fundação da Casa de Mateus.

Publicou «lua-polaroid» (Corpos editora, 2003), «Talvez os Lírios Compreendam», prefácio de António Mega Ferreira (Cadernos do Campo Alegre, 2004), «A Cidade Líquida e Outras Texturas» (Deriva editores, 2006; 2ª ed. 2007), «O Problema de Ser Norte» (Deriva editores, 2008) e «A Inexistência de Eva» (Deriva editores, 2009).