quarta-feira, 11 de março de 2015

POESIA À MESA 2015 - INAUGURAÇÃO DA EXPOSIÇÃO "O BELO ÉTICO" DE ISABEL LHANO


Inserida na Campanha da Poesia à Mesa 2015, no próximo dia 13 de Março, sexta feira, pelas 18 horas, será inaugurada a exposição de pintura “O BELO ÉTICO” de Isabel Lhano.







O belo ético
Valter Hugo Mãe


Ia e voltou
à boca do ar
com a boca a brilhar
de alegria
         
                Mário Cesariny


A arte da Isabel Lhano é eminentemente ética. A sua pintura busca avidamente uma aposta no humano, idealmente julgando que o convívio com a harmonia e beleza inequívocas leva à sedução para os afetos, leva à formação de gente imbuída de melhores impulsos para se chegar a um mundo melhor. Estamos no território das utopias, é certo, que no caso da Isabel ultrapassam a sua magnífica capacidade para a representação do corpo e se definem por essa glorificação do humano através da elevação da sua imagem a uma expressão artística quase sagrada. 

Há uma intenção cândida, muito fora de modas, que tem na delicadeza destas imagens um discurso de combate. O que a Isabel propõe é sempre o deslumbre para ressaltar valores que antagonizem a pulsão para destruir. O que procura fazer é invariavelmente mostrar o melhor do afeto para colocar o assunto no centro do mundo e não permitir que outro valor se coloque maior do que esse.
Daqui decorre a sacralização. Não uma ligação com o sublime transcendente, mas uma fixação com os valores de uma realidade que se efetiva no trato entre os homens. As pessoas como lugar absoluto, com sua justificação e suficiência.


É interessante perceber que, ao longo dos anos e das fases, a Isabel sempre pesquisou essa maravilha que é o outro, o desconhecido ou não, colocado na tela como objeto de admiração, diria, colocado como o objetivo. O seu objetivo é o outro. As suas telas adoram-no, expõem-no na sua própria e sempre magnífica identidade. Isso já é claro em todo o tempo em que escondeu os rostos às figuras retratadas e tornou-se mais óbvio quando assumiu a longa coleção de retratos da gente dos seus afetos pessoais. De algum modo, esta gente do seu universo pessoal esteve sempre em causa, pois, de entre estas pessoas escolheu os seus modelos e com estas pessoas imaginou o mundo melhor pelo qual se debela.

Esta é uma forma de participar. É como escolhe, ou como foi escolhida pela natureza, comunicar a sua urgência para uma harmonização e equilíbrio que permitam a pacificação de todos. É muito interessante perceber que, depois de tantas abordagens, os últimos trabalhos da Isabel pareçam ir ao encontro do mais vulnerável e íntimo das figuras representadas. Não é estranho que assim seja, o resultado do que vemos nos quadros da Isabel inspira sempre ao íntimo, mas agora parecem desembocar na ideia de pacificação, um quase retrato uterino, com as figuras no espaço da cama, símbolo do envolvimento aquático do ventre, símbolo do renascimento de cada dia, símbolo do amor. E o amor é sempre construção. O gesto é desarmado, quase sempre contido, sincero. As suas figuras são entendidas e mostradas pela sua dimensão mais sincera.
                                                      
Isabel Lhano é natural de Vila do Conde. Licenciada em Pintura pela Faculdade de Belas Artes do Porto. Bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian nos anos 1971 e 1972. Autora do Projecto "Mom’arte", co-responsável pela organização e membro do júri de selecção e premiação - Convento do Carmo Vila do Conde, 1998. Autora do projecto e design da edição "Homenagem a Sónia Delaunay" - CM Vila do Conde. Responsável em 1992 pela programação e direcção artística da Galeria do Auditório Municipal de Vila do Conde. Directora Artística da Galeria Delaunay, Vila do Conde, de 1996 a 1999. 1º Prémio do Concurso Gráfico da Sarrió, com o catálogo “Acto do Corpo", na SNBA. Edição de serigrafia pelo Centro Português de Serigrafia, Lisboa, 1999. Representada no Museu Amadeo de Souza-Cardoso, no Museu de Arte Contemporânea de VN de Cerveira e por aquisição na Delegação Norte do Ministério da Cultura e na Fundação Eng. António Almeida, Porto. Edição em 2000 de serigrafia, a convite da Delegação Norte do Ministério da Cultura. Autora das capas de livros de vários autores Portugueses, como: Valter Hugo Mãe, João Rios, Rita Ferro Rodrigues, Daniel Maia Pinto. Em 2004 participou no livro de aniversário da quasi editora “Afectos e outros afectos” com prefácio de Mário Soares. Prémio Erótika 2009 - Bienal de Arte Erótica de Gondomar. 
Tem realizado exposições individuais desde 1983, sendo as últimas: 2002 – “Afectos", Instituto Camões, Luxemburgo. “Afectos", Museu Amadeo de Souza Cardoso, Amarante. 2003 - "Dos Afectos", Galeria da Árvore, Porto. 2004 – “Elogio do Essencial” Instalação de pintura na Casa das Artes de Famalicão. 2005 - "Elogio do Essencial", Galeria Esteta, Porto. 2006 - "Se estas telas falassem", Galeria do Estaleiro Cultural Velha-a-Branca, Braga. 2007 - "A Concha quadrada", Galeria São Mamede, Lisboa. "Estamos Aqui", Galeria da Biblioteca Almeida Garret no Palácio de Cristal, Porto. 2009 - "Nós", Galeria de Arte Solar de St. António, Porto. 2011 “Aqui” 30 anos de percurso Artístico, Galeria do Centro de Memória de VC. 2012 “Se estas telas falassem”, Galeria da AMI - AMIARTE, Porto. 2012 “Enlevos”, Galeria A.S.V.S., Porto. 2013 “Rostos com Estórias”, Galeria do Instituto Politécnico, Viana do Castelo. 2014 – “Do Medo” – Galeria Artes Solar Sto. António, Porto.

terça-feira, 10 de março de 2015

De 13 a 27 Março | Poesia à Mesa em S. João da Madeira


Nomes da cultura dão voz às palavras dos poetas em restaurantes, fábricas e nos espaços culturais de S. João da Madeira, ao longo da Campanha Poesia à Mesa, que decorre de 13 a 27 de março.

Esta Campanha, que irá homenagear os poetas Álvaro de Magalhães, Ana Marques Gastão, Inês Fonseca Santos, Mário Cláudio, Manuel Bandeira e José Régio, tem como convidados especiais os atores António Capelo e Joaquim Nicolau.

Durante a campanha, os rostos estilizados dos seis poetas homenageados e versos da sua autoria percorrem a cidade, impressos em toalhetes de mesa, sacos de pão, bases de copos, bases de chávenas, aventais e lápis.

Este é um evento que convida a estar à mesa com Poesia, daí que não faltem sessões de declamação em diferentes restaurantes de S. João da Madeira, a realizar de 16 a 21 de março, com o ator Pedro Lamares e grupos locais. Uma iniciativa que chega também a fábricas e instituições envolvidas noutro projeto de referência na cidade: os Circuitos Pelo Património Industrial.

O programa abre já nesta sexta-feira, 13 de março, às 18h00, com a inauguração na Biblioteca Municipal da exposição “O Belo Ético”, de Isabel Lhano, cuja pintura, nas palavras do escritor Valter Hugo Mãe, “busca avidamente uma aposta no humano”.






POESIA À MESA 2015


sexta-feira, 6 de março de 2015

Naquele piquenique de burguesas... de Cesário Verde


Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão de bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos
E pão de ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas
Naquele piquenique de burguesas,

Cesário Verde
(1855-1886)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

brincávamos a cair nos braços um do outro de Valter Hugo Mãe


brincávamos a cair nos
braços um do outro, como faziam
as actrizes nos filmes com o marlon
brando, e depois suspirávamos e ríamos
sem saber que habituávamos o coração à
dor. queríamos o amor um pelo outro
sem hesitações, como se a desgraça nos
servisse bem e, a ver filmes, achávamos que
o peito era todo em movimento e não
sabíamos que a vida podia parar um
dia. eu ainda te disse que me doíam os
braços e que, mesmo sendo o rapaz, o
cansaço chegava e instalava-se no meu
poço de medo. tu rias e caías uma e outra
vez à espera de acreditares apenas no que
fosse mais imediato, quando os filmes acabavam,
quando percebíamos que o mundo era
feito de distância e tanto tempo vazio, tu
ficavas muito feminina e abandonada e eu
sofria mais ainda com isso. estavas tão
diferente de mim como se já tivesses
partido e eu fosse apenas um local esquecido
sem significado maior no teu caminho. tu
dizias que se morrêssemos juntos
entraríamos juntos no paraíso e querias
culpar-me por ser triste de outro modo, um
modo mais perene, lento, covarde. Eu
amava-te e julgava bem que amar era
afeiçoar o corpo ao perigo. caía eu
nos teus braços, fazias um
bigode no teu rosto como se fosses o
marlon brando. eu, que te descobria como se
descobrem fantasias no inferno, não
queria ser beijado pelo marlon brando e
entrava numa combustão modesta que, às
batidas do meu coração, iluminava o meu
rosto como lâmpada falhando

a minha mãe dizia-me, valter tem cuidado, não
brinques assim, vais partir uma perna, vais
partir a cabeça, vais partir o
coração. e estava certa, foi tudo verdade

valter hugo mãe, in 'contabilidade'
(1971-   ) 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

O MARQUÊS DE CHAMILLY A MARIANA ALCOFORADO DE ADÍLIA LOPES


Minha senhora deve ter
uma coisa muito urgente e capital
a dizer-me
porque me tem escrito muito
e muitas vezes
porém lamento dizer-lho
mas não percebo
a sua letra
já mostrei as suas cartas
a todas as minhas amigas
e à minha mãe
e elas também não percebem bem
não me poderia dizer
o que tem a dizer-me
em maiúsculas?
ou pedir a alguém
com uma letra mais regular
que a sua
que me escreva
por si?
como vê tenho a maior vontade
em lhe ser útil
mas a sua letra minha senhora
não a ajuda



ADÍLIA LOPES (1960- ) poetisa, cronista e tradutora
O Marquês de Chamilly


sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Carta (Esboço)


Lembro-me agora que tenho de marcar um
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei de que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir de pretexto
para reflectir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É
que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação ;
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possível
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,
isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos
encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.

Nuno Júdice (1949-   ), in “Poesia Reunida”
Poeta, ensaísta
 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

"Dorme, dorme meu menino" de Eduardo Leal


Sentamo-nos a trocar histórias. Vamos fundo na memória.

Dorme, dorme  meu menino.
Esquece a dor que te incomoda, o desatino. Morde
firme as chupetas que te oferecem, não protestes. não grites, não chores, dorme.
Conta-me os teus sonhos para que os reescreva e possas sonhar baixinho, outra vez.
Diz-me dos pecados, ainda que pensados, para que te castigue e enfim te absolva.
Dorme, dorme meu menino.
Que a noite já lá vem e de mansinho.

Fazemos a nossa velha história.

Espreguiça-te nos dias acizentados do teu silêncio.
Contenta-te com a fartura que te ofereço, fabricada a oriente,
onde outros dormem um sono mais pesado do que o teu.
Consola-te nos jogos de poder. Acalma-te na rede à
procura do vazio. E se o vires, vira-te para o lado, não viste nada.

Dorme, dorme meu menino.

Eduardo Leal (1962-   )
In "Em vez do silêncio"

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Manoel de Barros 1916-2014


O poeta brasileiro Manoel de Barros morreu esta quinta-feira, aos 97 anos, em Campo Grande no Brasil.

O poeta que nasceu em Dezembro de 1916 em Cuiabá, no Estado de Mato Grosso, é o “poeta maior” do Brasil, nas palavras de Carlos Drummond de Andrade. Era também advogado e fazendeiro. Ao longo da sua longa carreira obteve importantes prémios literários, como o Prémio Nacional de Poesia (1966), o Prémio Jabuti (1989 e 2002) ou o Prémio da Academia Brasileira de Letras (2000). Em 2012 recebeu o prémio literário da Casa da América Latina.
Está editado em Portugal com as chancelas da extinta Quasi e da Caminho. Foi aliás esta editora da Leya que publicou uma edição que condensa toda a sua poesia publicada até ao ano 2010. Logo à entrada deste livro, o poeta escrevia: "A única língua que estudei com força foi a portuguesa/ Estudei-a com força para poder errá-la ao dente" .
E é dele também : "Poesia é a infância da língua. Sei que os meus desenhos verbais nada significam. Nada. Mas se o nada desaparecer a poesia acaba. Eu sei. Sobre o nada eu tenho profundidades."
No obituário d' O Globo lembra-se que no documentário Só dez por cento é mentira, realizado por Pedro Cezar e lançado em 2008, quando ao poeta perguntam como gostaria de ser lembrado ele responde: “A gente nasce, cresce, amadurece, envelhece, morre. Pra não morrer, tem que amarrar o tempo no poste. Eis a ciência da poesia: amarrar o tempo no poste”.

  
O apanhador de desperdícios
Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
Manoel de Barros
     

terça-feira, 4 de novembro de 2014

"ANTÓNIO DE OLIVEIRA SALAZAR" por Fernando Pessoa


António de Oliveira Salazar.
Três nomes em sequência regular...
António é António.
Oliveira é uma árvore.
Salazar é só apelido.
Até aí está bem.
O que não faz sentido
É o sentido que tudo isto tem.
......
Este senhor Salazar
É feito de sal e azar.
Se um dia chove,
A água dissolve
O sal,
E sob o céu
Pica só azar, é natural.
Oh, c'os diabos!
Parece que já choveu...
......
Coitadinho
do tiraninho!
Não bebe vinho.
Nem sequer sozinho...

Bebe a verdade
E a liberdade.
E com tal agrado
Que já começam
A escassear no mercado.

Coitadinho
Do tiraninho!
O meu vizinho
Está na Guiné
E o meu padrinho
No Limoeiro
Aqui ao pé.
Mas ninguém sabe porquê.

Mas enfim é
Certo e certeiro
Que isto consola
E nos dá fé.
Que o coitadinho
Do tiraninho
Não bebe vinho,
Nem até
Café.

s.d.
Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979.
 - p. 349.
1ª publ. in Diário Popular , Lisboa, 30 Maio e 6 Junho 1974 . inc? CF. lello - fotoc

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

ODE LOUCA de Filipa Leal


















ODE LOUCA

Todos os homens têm o seu rio.
Lamentam-no sentados no interior das casas
de interior e como o poeta que escreve a lápis
apagam a memória com a sua água.
Os rios abandonam os homens que envelhecem
Longe da infância, e eles choram
o reflexo absurdo na distância.
Por vezes, enlouquecem os rios, os homens,
Os poetas nas suas palavras repetidas
que buscam uma ode que lhes diga
a textura. Todos procuram o mesmo:
um lugar de  água mais limpa
ou um espelho que não lhes negue
a hipótese do reflexo.
O rio sofre mais do que o homem,
o poeta,
porque dele se espera que nos devolva
a imagem de tudo, menos de si próprio.
Todos os rios têm o seu narciso,
mas poucos, muitos poucos,
O simples reflexo das suas águas.

Filipa Leal in A Cidade Líquida e Outras Texturas

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

OUTUBRO de Maria Teresa Horta


Estas noites de mar
incrustadas
de luz

ou estes olhos
e pólos
distanciados no nada

Este ódio de chuva

este dia montanha

Esta arma de boca
ou tempo encontrado
com relógios
na montra

Este ardor de palavras
no perfil
das bocas

este grito
que tenho
nas mãos misturadas

Ou mãos misturadas
que tenho
de outubro
no sabor picante
sentido nas casas

in "Tatuagem" Poesia 61, 1961
Maria Teresa Horta (1937-  )

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

"El Hombre Imaginario" de Nicanor Parra

El hombre imaginario
vive en una mansión imaginaria
rodeada de árboles imaginarios
a la orilla de un río imaginario

De los muros que son imaginarios
penden antiguos cuadros imaginarios
irreparables grietas imaginarias
que representan hechos imaginarios
ocurridos en mundos imaginarios
en lugares y tiempos imaginarios

Todas las tardes imaginarias
sube las escaleras imaginarias
y se asoma al balcón imaginario
a mirar el paisaje imaginario
que consiste en un valle imaginario
circundado de cerros imaginarios

Sombras imaginarias
vienen por el camino imaginario
entonando canciones imaginarias
a la muerte del sol imaginario

Y en las noches de luna imaginaria
sueña con la mujer imaginaria
que le brindó su amor imaginario
vuelve a sentir ese mismo dolor
ese mismo placer imaginario
y vuelve a palpitar
el corazón del hombre imaginario




Nicanor Parra (5 Setembro de 1914- ) matemático e poeta chileno, Prémio Cervantes 2011, 
oferecido pelo Ministério da Cultura de Espanha.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

PEQUENA ELEGIA DE SETEMBRO de Eugénio de Andrade










Pequena Elegia de Setembro

Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.

Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.

Que música escuta tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,
Dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.

Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.

Eugénio de Andrade

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

CONFIDENCIAL de Miguel Torga




Confidencial

Não me perguntes, porque nada sei
Da vida,
Nem do amor,
Nem de Deus,
Nem da morte.
Vivo,
Amo,
Acredito sem crer,
E morro, antecipadamente
Ressuscitando.
O resto são palavras
Que decorei
De tanto as ouvir.
E a palavra
É o orgulho do silêncio envergonhado.
Num tempo de ponteiros, agendado,
Sem nada perguntar,
Vê, sem tempo, o que vês
Acontecer.
E na minha mudez
Aprende a adivinhar
O que de mim não possas entender.


Miguel Torga



                                                                                

quinta-feira, 24 de julho de 2014

José Gil premiado por livro sobre o tema dos heterónimos em Fernando Pessoa.

José Gil DANIEL ROCHA

José Gil distinguido com Grande Prémio de Ensaio Eduardo Prado Coelho

O livro de José Gil,  Cansaço, Tédio, Desassossego  (edição Relógio d’Água, 2013) foi distinguido com o Grande Prémio de Ensaio Eduardo Prado Coelho, promovido pela Associação Portuguesa de Escritores (APE) e pela Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão.

A decisão, divulgada num comunicado da APE desta segunda-feira, foi tomada por um júri constituído por António Pedro Pita, Helena Vasconcelos e João Barrento (este tendo sido distinguido em 2011).

O prémio, no valor de 7.500 euros, vai ser entregue ao ensaísta, em Famalicão, em data ainda a anunciar.

Cansaço, Tédio, Desassossego é um livro composto por quatro ensaios sobre o tema dos heterónimos em Fernando Pessoa, um universo ficcional cujo centenário do “nascimento” foi assinalado este ano, aquando da passagem do “dia triunfal” de 8 de Março – relativo ao ano de 1914, aquele que Pessoa, segundo carta enviada a Adolfo Casais Monteiro, indicou como sendo a data precisa do nascimento dos heterónimos, através da figura de Alberto Caeiro.

Numa recensão crítica a Cansaço, Tédio, Desassossego publicada no suplemento Ípsilon, o crítico e colaborador do PÚBLICO António Guerreiro nota que, no seu livro, José Gil “vai mesmo directo à questão do que são os heterónimos ('Qual o estatuto – ficcional, literário, ontológico – de que gozam?'), mostrando que, em Pessoa, toda a passagem do plano da vida para o plano da literatura supõe a noção de 'vida heteronímica', constituída por afectos, visões, sensações, etc. E aí abre-se um vasto campo a explorar”.

No ainda curto historial do Grande Prémio de Ensaio Eduardo Prado Coelho, que é integralmente patrocinado pela Câmara de Famalicão, José Gil sucede a Rosa Maria Martelo, João Barrento, Manuel Gusmão e Vítor Manuel Aguiar e Silva, os anteriores distinguidos.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Fernando Guimarães vence primeiro Grande Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes


«O poeta Fernando Guimarães venceu a primeira edição do Grande Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes concedido pela Associação Portuguesa de Escritores e pela Câmara de Amarante.

O júri constituído por António Mega Ferreira, Fernando Martinho e José Manuel Mendes decidiu, por unanimidade, atribuir o galardão ao livro Os Caminhos Habitados editado pela Afrontamento.» Ler na Renascença.

«"Desde o título, este conjunto de textos regressa à energia dos tópicos nucleares do seu percurso, a habitação do ser, o saturnianismo dos dias, sempre elaborado com uma exigência formal e uma concisão e densidade raras na poesia portuguesa contemporânea", lê-se no texto elaborado pelo júri.

A primeira edição do Grande Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes foi coordenada pela APE e patrocinada pela Câmara Municipal de Amarante e, "a título excecional, foram incluídas as obras saídas nos anos de 2011, 2012 e 2013".

Fernando Guimarães, de 86 anos, natural do Porto, é poeta, ensaísta, tradutor e foi já distinguido com outros dois galardões atribuídos pela APE, designadamente pelas suas obras O Anel Débil (1992) e Na Voz de Um Nome (2006).» Ler no iOnline.

«O valor deste Grande Prémio é no montante de € 12.500 (doze mil e quinhentos euros).» Ler  no Local.pt.
Fontehttp://blogtailors.com/fernando-guimaraes-vence-primeiro-7452477

sexta-feira, 18 de julho de 2014

"Não gosto tanto" de Adília Lopes

Não gosto tanto 

Não gosto tanto
de livros
como Mallarmé
parece que gostava
eu não sou um livro
e quando me dizem
gosto muito de seus livros
gostava de poder dizer
como o poeta Cesariny
olha
eu gostava
é que tu gostasses de mim
os livros não são feitos
de carne e osso
e quando tenho
vontade de chorar
abrir um livro
não me chega
preciso de um abraço
mas graças a Deus
o mundo não é um livro
e o acaso não existe
no entanto gosto muito
de livros
e acredito na Ressurreição
dos livros
e acredito que no Céu
haja bibliotecas
e se possa ler e escrever.


(De Florbela Espanca Espanca, ou “Antologia”, pela Cosac&Naify).


terça-feira, 8 de julho de 2014

"IRA" DE AMALIA BAUTISTA






Ira

Ninguna más injusta por desproporcionada
que la ira de Dios
contra el gesto pueril de los amantes.
Sólo era una manzana
y el deseo de ser osados, libres, buenos.


Amália Bautista (1962- ) 

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Panteão Nacional abre esta quarta-feira as portas à grandeza poética e cívica de Sophia


Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) entra esta quarta-feira no Panteão Nacional, quando se cumprem dez anos sobre a sua morte e se comemora o 40.º aniversário do 25 de Abril, esse “dia inicial inteiro e limpo”, como ela própria o descreveu naquele que é provavelmente o mais belo dos poemas dedicados à revolução dos cravos.

A ideia de trasladar os restos da escritora para o Panteão, na Igreja de Santa Engrácia, surgiu publicamente em Novembro do ano passado com um artigo que o escritor José Manuel dos Santos, ex-assessor cultural de Mário Soares e Jorge Sampaio, assinou no PÚBLICO. Ainda no final de 2013, por iniciativa dos deputados Marco Perestrello (PS) e Nuno Encarnação (PSD), a proposta chegou ao Parlamento, onde veio a ser aprovada por unanimidade em Fevereiro deste ano.




























Revolução

Como casa limpa 
Como chão varrido 
Como porta aberta 

Como puro início 
Como tempo novo 
Sem mancha nem vício 

Como a voz do mar 
Interior de um povo 

Como página em branco 
Onde o poema emerge 

Como arquitectura 
Do homem que ergue 
Sua habitação 

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"