quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

RODRIGO LEÃO ABRE CAMPANHA DA POESIA À MESA COM “OS POETAS



         Quando à música falada se mistura performance, o resultado é um espetáculo único e encantatório


Em 2016, a Campanha “Poesia à Mesa” abre com o extraordinário espectáculo “Os Poetas”, um projecto de Rodrigo Leão e Gabriel Gomes.
O espectáculo decorre na Casa da Criatividade, no dia 12 de Março, sábado, às 22h, e junta em palco Rodrigo Leão, Gabriel Gomes, Sandra Martins e Viviena Tupikova, tendo como convidado especial o ator Cláudio da Silva que, em 2011, foi galardoado com o Prémio Melhor Ator de Cinema, pela Sociedade Portuguesa de Autores, pelo seu papel em “Filme do Desassossego” de João Botelho.
Mário Cesariny, Herberto Hélder, Adília Lopes, António Ramos Rosa, Al Berto e Luiza Neto Jorge são os poetas cantados, ditos e musicados ao longo desta noite mágica.
Os bilhetes estão à venda a partir de hoje na BilheteiraOnline (http://cmsjm.bol.pt/), na Casa da Criatividade, Paços da Cultura, lojas FNAC, CTT, Centro Comercial 8.ª Avenida (Worten), El Corte Inglês, Pousadas da Juventude, a linha 24h de reservas e informações 18 20 do MEO e os Quiosques Serveasy (novos locais).

Pequena biografia
O projecto “OS POETAS” surgiu de encontros entre Rodrigo Leão, Gabriel Gomes e Hermínio Monteiro, então editor da Assírio & Alvim, em cujo espólio existiam gravações de poetas a dizerem os próprios poemas.
“Entre Nós e as Palavras”, de 1997, foi o resultado de meses intensos de composição, de uma afinidade com os poetas escolhidos e da amizade cúmplice entre os dois músicos, que se nota muito quando compõem e quando atuam.
Com Francisco Ribeiro (ex-Madredeus) e Margarida Araújo nas cordas, o ensemble fez alguns concertos ainda nos anos 90.

“Os Poetas” regressam agora
“Os Poetas” regressam com a reedição do álbum “Entre Nós e As Palavras”, de 1997, há muito esgotado. Durante o ano de 2012, compuseram novas músicas e reformularam o espetáculo, projetando os textos e chamando o ator Miguel Borges para dizer poemas. Viviena Tupikova e Sandra Martins vieram completar o ensemble.
O novo modelo de atuação ao vivo resultou plenamente no concerto no cinema São Jorge, em 2012, onde foi bem notória a adesão e a proximidade calorosa do público. Mas também nas apresentações mais recentes no CCB, Teatro Aveirense e Casa da Música.

O espetáculo tem uma vertente de música com instrumentais; tem poetas [gravados] a dizerem os seus próprios poemas; e, depois, tem uma vertente um pouco teatral, que é o ator que encarna a personagem e diz os poemas.
Não é este um concerto para eruditos ou específicos leitores e amantes de poesia. Sendo a palavra importantíssima e ponto de partida para a composição - ela é o comandante deste “Navio de Espelhos” - a música não é um mero suporte pois acaba por se fundir com os poemas.
Assim, à música falada mistura-se a performance, resultando num espetáculo único e encantatório.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Pela obra “O Movimento Impróprio do Mundo” Prémio Literário João da Silva Correia distingue Sara F. Costa em 2015


Sara F. Costa é a vencedora do Prémio Literário João da Silva Correia, cuja edição de 2015 foi dedicada à Poesia, com a obra “O Movimento Impróprio do Mundo”.

Esta distinção é atribuída pela Câmara Municipal de S. João da Madeira e traduz-se num apoio monetário à publicação do título escolhido pelo júri, até ao montante máximo de 2.000 euros.

Em “O Movimento Impróprio do Mundo”, segundo o júri do concurso - constituído pela representante do Município de S. João da Madeira, Suzana Menezes, pelo representante da Âncora Editora, António Baptista Lopes, e pelo poeta José Fanha -, a autora “apresenta uma escrita fluida e ampletiva, tonalizada com algum humor, aparentemente simples, mas trabalhada e consistente".


Abordando temáticas atuais e referências a símbolos identitários nacionais, o livro premiado contém um conjunto de poemas que desenvolvem uma reflexão poética intensa e envolvente em torno do quotidiano do próprio poeta, transportando o leitor para universos marcadamente pessoalizados”.

Esta é a terceira vez que uma obra de Sara F. Costa, escritora e poetisa, vence este concurso literário promovido pela autarquia sanjoanense, depois de já ter sido distinguida por “Uma Devastação Inteligente”, em 2007, e “O Sono Extenso”, em 2011.

O avô materno de Sara F. Costa nasceu e cresceu em S. João da Madeira, cidade onde a jovem autora – natural da vizinha freguesia de Cucujães, no concelho de Oliveira de Azeméis – fez a sua formação até à conclusão do ensino secundário, na Escola Dr. Serafim Leite.

A ligação ao município sanjoanense é uma das condições definidas no regulamento do Concurso João da Silva Correia, lançado em 2006 pela Câmara de S. João da Madeira, para “promover e consolidar hábitos de leitura e de escrita criativa”, estimulando um “envolvimento efetivo da população” e “incentivando o aparecimento de novos valores” na literatura.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

"BALADA DA NEVE" DE AUGUSTO GIL



Batem leve, levemente, 
como quem chama por mim. 
Será chuva? Será gente? 
Gente não é, certamente 
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania: 
mas há pouco, há poucochinho, 
nem uma agulha bulia 
na quieta melancolia 
dos pinheiros do caminho...

Quem bate, assim, levemente, 
com tão estranha leveza, 
que mal se ouve, mal se sente? 
Não é chuva, nem é gente, 
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía 
do azul cinzento do céu, 
branca e leve, branca e fria... 
- Há quanto tempo a não via! 
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça. 
Pôs tudo da cor do linho. 
Passa gente e, quando passa, 
os passos imprime e traça 
na brancura do caminho...

Fico olhando esses sinais 
da pobre gente que avança, 
e noto, por entre os mais, 
os traços miniaturais 
duns pezitos de criança...

E descalcinhos, doridos... 
a neve deixa inda vê-los, 
primeiro, bem definidos, 
depois, em sulcos compridos, 
porque não podia erguê-los!...

Que quem já é pecador 
sofra tormentos, enfim! 
Mas as crianças, Senhor, 
porque lhes dais tanta dor?!... 
Porque padecem assim?!...

E uma infinita tristeza, 
uma funda turbação 
entra em mim, fica em mim presa. 
Cai neve na Natureza 
- e cai no meu coração.

Augusto Gil, Luar de Janeiro
advogado e poeta (1873-1929) 

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

"ROMANCE DE UM FUTURO NATAL" DE DAVID MOURÃO FERREIRA




Vai a caminho de Marte
um foguetão de turistas
Turismo pobre... É um charter
de tarifa reduzida
Ou serão refugiados
Parece que vão fugidos
Quem sabe de que se escapam
Quem sabe a que vão fugindo

Consta da lista uma grávida
com ar de Madona antiga
das que inda se desenhavam
nos fins do século vinte
Chegou à pista de embarque
mesmo à hora da partida
E traz escrito na face
aquilo que decidira

Não quer que seu filho nasça
na Terra que vai perdida
Dão-lhe razão
Todos sabem
que funda razão lhe assiste
Todos conhecem o estado
que a pobre Terra atingiu
sobretudo após a grave
crise do século trinta

Vão a caminho de Marte
como quem foge à desdita
Sentem-se dentro da nave
bastante mais protegidos
É como voltar ao espaço
de antes de haverem nascido
Todos a grávida tratam
com cuidados infinitos
E sonham Talvez em Marte
nem tudo esteja perdido
Mas não sabem que na cápsula
um grupo de terroristas
vai sabotando a viagem
mudando o rumo previsto
Fica tudo executado
em pouco mais de três dias

E torna de novo a nave
quase ao ponto de partida
Quem mais se aflige é a grávida
com ar de Madona antiga
ao ver que à Terra terá de
ir entregar o seu filho
Já lhe rebentam as águas
quando se apeia na pista

Já pra dentro de uma cave
os outros a encaminham
Já por entre as dores do parto
um facho de luz luzia
Quem sabe se necessário
não fora enfim tudo isso
para que à Terra baixasse
mais um resgate possível

Pálida pálida pálida
lívida lívida lívida
de costas a mulher grávida
já vagamente sorria.

David Mourão-Ferreira (1927-1996)

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

HÁ PRECISAMENTE 80 ANOS, PESSOA MORREU NO BAIRRO ALTO EXCLAMANDO, "I KNOW NOT WHAT TOMORROW WILL BRING"







Fernando Pessoa, poeta maior da língua portuguesa, morreu no Hospital de São Luís dos Franceses, a 30 de novembro de 1935. Oitenta anos depois, com a Cimeira do Clima a decorrer em Paris, o Expresso recorda nove excertos poéticos de Alberto Caeiro, o heterónimo que mais louvou a natureza.

Pessoa, poeta imortal, atravessa oceanos. Mas o seu corpo partiu há 80 anos, a 30 de novembro de 1935. O poeta e os seus heterónimos permanecem atuais. 
Em plena Cimeira do Clima - que termina em Paris no próximo dia 11 - o Expresso recorda a forma como Alberto Caeiro, o bucólico heterónimo canta a natureza, o “correr dos rios”, o “murmúrio das árvores”, as “grandes montanhas” e as “cousas cheias de calor”.
Aqui vos deixamos nove excertos de Alberto Caeiro, a mais simples e naturalista das ‘criaturas’ de Pessoa.

“Aquela Senhora tem um Piano”

“Aquela senhora tem um piano Que é agradável mas não é o correr dos rios Nem o murmúrio que as árvores fazem ... Para que é preciso ter um piano? O melhor é ter ouvidos E amar a Natureza”

“Há Metafísica Bastante em Não Pensar em Nada”

“Mas se Deus é as flores e as árvores E os montes e sol e o luar, Então acredito nele, Então acredito nele a toda a hora, E a minha vida é toda uma oração e uma missa, E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos”

“O Meu Olhar”

“Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é, Mas porque a amo, e amo-a por isso, Porque quem ama nunca sabe o que ama”

“Talvez quem vê bem não sirva para sentir”

“Como o campo é grande e o amor pequeno! Olho, e esqueço, como o mundo enterra e as árvores se despem”

“Deste Modo ou Daquele Modo”

“E assim escrevo, querendo sentir a Natureza, nem sequer como um homem, Mas como quem sente a Natureza, e mais nada”

“Li Hoje”

“Por mim, escrevo a prosa dos meus versos E fico contente, Porque sei que compreendo a Natureza por fora; E não a compreendo por dentro Porque a Natureza não tem dentro; Senão não era a Natureza.”

“O pastor amoroso perdeu o cajado”

“Os grandes vales cheios dos mesmos vários verdes de sempre, As grandes montanhas longe, mais reais que qualquer sentimento, A realidade toda, com o céu e o ar e os campos que existem, E sentiu que de novo o ar lhe abria, mas com dor, uma liberdade no peito”

“Num Dia de Verão”

“Quando o Verão me passa pela cara A mão leve e quente da sua brisa, Só tenho que sentir agrado porque é brisa Ou que sentir desagrado porque é quente, E de qualquer maneira que eu o sinta, Assim, porque assim o sinto, é que é meu dever senti-lo... ”

“Há Metafísica Bastante em Não Pensar em Nada”

“Quem está ao sol e fecha os olhos, Começa a não saber o que é o sol E a pensar muitas cousas cheias de calor. Mas abre os olhos e vê o sol, E já não pode pensar em nada, Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos De todos os filósofos e de todos os poetas”


Fonte:

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

"PORQUE" DE SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN



Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não


Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.


Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.


Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.



Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

terça-feira, 20 de outubro de 2015

"ANIVERSÁRIO" DE FERNANDO PESSOA


No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa(1888-1935)

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

"ARTE POÉTICA" DE ANTÓNIO RAMOS ROSA

 
Se o poema não serve para dar o nome às coisas
outro nome e ao seu silêncio outro silêncio,

se não serve para abrir o dia
em duas metades como dois dias resplandecentes

e para dizer o que cada um quer e precisa
ou o que a si mesmo nunca disse.

Se o poema não serve para que o amigo ou a amiga
entrem nele como numa ampla esplanada
e se sentem a conversar longamente com um copo de vinho na mão
sobre as raízes do tempo ou o sabor da coragem
ou como tarda a chegar o tempo frio.

Se o poema não serve para tirar o sono a um canalha
ou ajudar a dormir o inocente
se é inútil para o desejo e o assombro,
para a memória e para o esquecimento.

Se o poema não serve para tornar quem o lê
num fanático
que o poeta então se cale.

                                                      António Ramos Rosa, in Revista Sílex, 1980

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

PRÉMIO LITERÁRIO JOÃO DA SILVA CORREIA - CATEGORIA POESIA 2015

 
 
 
Estão abertas as candidaturas ao Prémio Literário João da Silva Correia na categoria Poesia que visa distinguir obras inéditas em língua portuguesa.
 
A entrega de trabalhos decorre até ao próximo dia 25 de Setembro. Os concorrentes devem ser naturais ou residentes de S. João da Madeira ou ter ascendência sanjoanense (pais ou avós) ou desenvolver actividade neste município (estudo ou trabalho).
 
O prémio traduz-se num apoio monetário à publicação da obra vencedora, até ao montante máximo de 2.000 euros.
 
Para mais informações deverá consultar o regulamento do prémio disponível em http://www.cm-sjm.pt/files/21/21245.pdf

terça-feira, 1 de setembro de 2015

"No Entardecer dos Dias de Verão" de Alberto Caeiro

 

No entardecer dos dias de Verão, às vezes,
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa...
Mas as árvores permanecem imóveis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria...
Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem!
Fôssemos nós como devíamos ser
E não haveria em nós necessidade de ilusão ...
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida
E nem repararmos para que há sentidos ...
Mas graças a Deus que há imperfeição no Mundo
Porque a imperfeição é uma cousa,
E haver gente que erra é original,
E haver gente doente torna o Mundo engraçado.
Se não houvesse imperfeição, havia uma cousa a menos,
E deve haver muita cousa
Para termos muito que ver e ouvir ...

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XLI"
Heterónimo de Fernando Pessoa (1889-1935)

quinta-feira, 30 de julho de 2015

"A um cavalheiro que chorou com a esposa uma pequena perda" de Estevan Villegas

Passaram pelas nossas vidas cautelosos,
como quem anda sobre almofadas de algodão,
capazes de andar sobre vidro sem o partir,
de roçar um copo sem derramar uma só gota.
Sabem escolher, no verão, a sobra mais fresca
e, no inverno, o calor dos nossos corpos adormecidos.
Caminhavam pela casa semeando uma esteira
de inapreensíveis fios de ouro ou madrepérola.
Quantas vezes nos roubaram o lugar,
que era também o seu preferido,
e nós, reis destronados e enormes,
fomos acomodar-nos - por assim dizer -
no mais incómodo assento da casa.
Quantas vezes sossegaram a nossa angústia
com esse rumor que lhes vibra na garganta.
Demos-lhes tudo o que quiseram,
e eles aceitaram
com a majestade de quem nada pediu.
E, por vezes, assaltava-nos a estranheza
de termos aberto a casa a uma fera terrível,
uma fera munida de garras e de dentes que,
com uma língua de lixa, alisa a sua seda ao sol.
Por fim morreram:
apenas um suspiro,
e deles restou um farrapo de pele macia, quase nada,
sigilosos e dignos
na morte como na vida.
Assim foram os nossos gatos,
e mesmo agora,
muitos meses depois,
de vez em quando
encontramos
um pequeno pelo de seda nas nossas roupas.

Estevan Villegas
Vida cotidiana, 1995

segunda-feira, 20 de julho de 2015

então queres ser um escritor?


 
se não sai de ti a explodir

apesar de tudo,
não o faças.
a menos que saia sem perguntar do teu
coração, da tua cabeça, da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.
se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.

se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.

se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.

não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-
— devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.

quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.

não há outra alternativa.

e nunca houve.

Charles Bukowski (1920-1994)
(Tradução: Manuel A. Domingos)

terça-feira, 7 de julho de 2015

MARIA BARROSO 1925-2015

Memórias da passagem poética por S. João da Madeira...






sexta-feira, 3 de julho de 2015

sexta-feira, 29 de maio de 2015

"URGENTEMENTE" DE EUGÉNIO DE ANDRADE

Urgentemente

É urgente o amor
É urgente um barco no mar

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos, muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Eugénio de Andrade, in "Até Amanhã"
(1923-2005)