terça-feira, 20 de outubro de 2015

"ANIVERSÁRIO" DE FERNANDO PESSOA


No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa(1888-1935)

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

"ARTE POÉTICA" DE ANTÓNIO RAMOS ROSA

 
Se o poema não serve para dar o nome às coisas
outro nome e ao seu silêncio outro silêncio,

se não serve para abrir o dia
em duas metades como dois dias resplandecentes

e para dizer o que cada um quer e precisa
ou o que a si mesmo nunca disse.

Se o poema não serve para que o amigo ou a amiga
entrem nele como numa ampla esplanada
e se sentem a conversar longamente com um copo de vinho na mão
sobre as raízes do tempo ou o sabor da coragem
ou como tarda a chegar o tempo frio.

Se o poema não serve para tirar o sono a um canalha
ou ajudar a dormir o inocente
se é inútil para o desejo e o assombro,
para a memória e para o esquecimento.

Se o poema não serve para tornar quem o lê
num fanático
que o poeta então se cale.

                                                      António Ramos Rosa, in Revista Sílex, 1980

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

PRÉMIO LITERÁRIO JOÃO DA SILVA CORREIA - CATEGORIA POESIA 2015

 
 
 
Estão abertas as candidaturas ao Prémio Literário João da Silva Correia na categoria Poesia que visa distinguir obras inéditas em língua portuguesa.
 
A entrega de trabalhos decorre até ao próximo dia 25 de Setembro. Os concorrentes devem ser naturais ou residentes de S. João da Madeira ou ter ascendência sanjoanense (pais ou avós) ou desenvolver actividade neste município (estudo ou trabalho).
 
O prémio traduz-se num apoio monetário à publicação da obra vencedora, até ao montante máximo de 2.000 euros.
 
Para mais informações deverá consultar o regulamento do prémio disponível em http://www.cm-sjm.pt/files/21/21245.pdf

terça-feira, 1 de setembro de 2015

"No Entardecer dos Dias de Verão" de Alberto Caeiro

 

No entardecer dos dias de Verão, às vezes,
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa...
Mas as árvores permanecem imóveis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria...
Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem!
Fôssemos nós como devíamos ser
E não haveria em nós necessidade de ilusão ...
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida
E nem repararmos para que há sentidos ...
Mas graças a Deus que há imperfeição no Mundo
Porque a imperfeição é uma cousa,
E haver gente que erra é original,
E haver gente doente torna o Mundo engraçado.
Se não houvesse imperfeição, havia uma cousa a menos,
E deve haver muita cousa
Para termos muito que ver e ouvir ...

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XLI"
Heterónimo de Fernando Pessoa (1889-1935)

quinta-feira, 30 de julho de 2015

"A um cavalheiro que chorou com a esposa uma pequena perda" de Estevan Villegas

Passaram pelas nossas vidas cautelosos,
como quem anda sobre almofadas de algodão,
capazes de andar sobre vidro sem o partir,
de roçar um copo sem derramar uma só gota.
Sabem escolher, no verão, a sobra mais fresca
e, no inverno, o calor dos nossos corpos adormecidos.
Caminhavam pela casa semeando uma esteira
de inapreensíveis fios de ouro ou madrepérola.
Quantas vezes nos roubaram o lugar,
que era também o seu preferido,
e nós, reis destronados e enormes,
fomos acomodar-nos - por assim dizer -
no mais incómodo assento da casa.
Quantas vezes sossegaram a nossa angústia
com esse rumor que lhes vibra na garganta.
Demos-lhes tudo o que quiseram,
e eles aceitaram
com a majestade de quem nada pediu.
E, por vezes, assaltava-nos a estranheza
de termos aberto a casa a uma fera terrível,
uma fera munida de garras e de dentes que,
com uma língua de lixa, alisa a sua seda ao sol.
Por fim morreram:
apenas um suspiro,
e deles restou um farrapo de pele macia, quase nada,
sigilosos e dignos
na morte como na vida.
Assim foram os nossos gatos,
e mesmo agora,
muitos meses depois,
de vez em quando
encontramos
um pequeno pelo de seda nas nossas roupas.

Estevan Villegas
Vida cotidiana, 1995

segunda-feira, 20 de julho de 2015

então queres ser um escritor?


 
se não sai de ti a explodir

apesar de tudo,
não o faças.
a menos que saia sem perguntar do teu
coração, da tua cabeça, da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.
se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.

se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.

se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.

não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-
— devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.

quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.

não há outra alternativa.

e nunca houve.

Charles Bukowski (1920-1994)
(Tradução: Manuel A. Domingos)

terça-feira, 7 de julho de 2015

MARIA BARROSO 1925-2015

Memórias da passagem poética por S. João da Madeira...






sexta-feira, 3 de julho de 2015

sexta-feira, 29 de maio de 2015

"URGENTEMENTE" DE EUGÉNIO DE ANDRADE

Urgentemente

É urgente o amor
É urgente um barco no mar

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos, muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Eugénio de Andrade, in "Até Amanhã"
(1923-2005) 

quinta-feira, 2 de abril de 2015

segunda-feira, 30 de março de 2015

ENTREGA DE PRÉMIOS POESIA NA CORDA 2015

Na passada sexta-feira decorreu a Entrega dos Prémios Poesia na Corda 2015, evento que encerra a Poesia à Mesa.

A Biblioteca agradeceu aos Ecos Urbanos pela parceria, à Dra. Cristina Marques pela sua participação como júri e ao Leo e João, alunos da Escola Secundária Oliveira Júnior pela oferta da sua performance musical.  






PREMIADOS


POEMAS PEQUENINOS


TEMA: OUTROS

Nome: Diana Santos (EB1 Carquejido, Professora Helena Freire)
Título: O zoo maluco

TEMA: AMOR 

Nome: Afonso Moura Martins dos Santos Ferreira  (EB1 Carquejido, Professora Salomé)
Título: Tristeza

TEMA: AMBIENTE 

Nome: Afonso Paulo Pinho Loureiro (EB1 Carquejido, Professora Elsa)
Título: A Borboleta



JOVENS

TEMA: AMOR

Nome: Rafaela Filipa Nogueira Conceição (Escola Secundária Dr. Serafim Leite)
Título: O amor


TEMA: AMBIENTE

Nome: Diana Santos (Escola Secundária Dr. Serafim Leite)
Título: Lá

TEMA: OUTROS

Nome: Tiago dos Santos Gomes (Escola Secundária Oliveira Júnior)
Título: Utopia do desconhecido



ADULTOS

TEMA: AMOR

Nome: Dina Silvério
Título: Murmúrios


TEMA: AMBIENTE

Nome: Lizete Gomes
Título: Na praia


TEMA: OUTROS

Nome: Dorinda Dias de Oliveira
Título: Prenúncio de Primavera


Nome: Ana Margarida Gomes Borges
Título: Poesia



ENTREGA DOS PRÉMIOS POESIA NA CORDA



ENTREGA DE PRÉMIOS “POESIA NA CORDA 2015”


[TOTAL: 199 POEMAS A CONCURSO]

POEMAS PEQUENINOS


TEMA: OUTROS

Nome: Diana Santos (EB1 Carquejido, Professora Helena Freire)
Título: O zoo maluco



No zoo maluco onde tudo é diferente
vi um sapo a namorar com uma pequena serpente,
um porco a conduzir sem carta de condução
a banheira da Ana e do João.


Vi um elefante a voar em cima do João Ratão
que estava a jantar com a Dona Carochinha
que andava de patins em linha.



TEMA: AMOR 

Nome: Afonso Moura Martins dos Santos Ferreira  (EB1 Carquejido, Professora Salomé)
Título: Tristeza


A tristeza   é perder amigos
                        é não ter a tua amizade
                        é não brincar
                        é magoar alguém com maldade

Eu não sou triste.
Tenho amigos.
Adoro brincar
Sou maroto
Fujo nos meus pensamentos.
Quando ouço a professora ralhar.

Fujo no olhar
escondo-me nas ideias.
Sonho acordado.
E escrevo palavras cheias.





TEMA: AMBIENTE 

Nome: Afonso Paulo Pinho Loureiro (EB1 Carquejido, Professora Elsa)
Título: A Borboleta



Estava a chorar
Uma borboleta
Não era feliz
Porque era branca e preta.

Chegou a menina
E viu-a a chorar
Com a sua magia
Alegria lhe voltou a dar.

Ficou com  7 cores
Um arco-íris parecia
Num mundo de flores
do sonho à fantasia.






TEMA: INDÚSTRIA E COMUNIDADE

Nome: Fabiana Alves  (EB1 Fundo de Vila, Professora Isabel Pinho)
Título: Oliva




Torneiras, fogões e Máquinas
A Oliva fez habilidade
Empregando muita gente
E desenvolvendo a cidade





JOVENS

TEMA: AMOR

Nome: Rafaela Filipa Nogueira Conceição (Escola Secundária Dr. Serafim Leite)
Título: O amor


O Amor?!...
É algo que o nosso olho não consegue ver,
Mas que o coração escolhe sem pudor
E, por vezes, nos faz sofrer.

Quando estou contigo sinto fogo no peito
Ardendo de desilusão.
Antes de amar é preciso respeito,
confiança e dedicação.

Do namoro ao altar
Todos querem ir,
Mas avançam sem pensar…
E deixam o coração partir!

Afinal, sobre o que é que escrevi?...
Digo-te apenas o que é, verdadeiramente, o Amor
É muito mais do que está aqui…
É Ele, o misterioso, o inexplicável, o poderoso Senhor!





TEMA: AMBIENTE

Nome: Diana Santos (Escola Secundária Dr. Serafim Leite)
Título: Lá




Rasgando a Paisagem,
O barco ruma em direção ao horizonte.

Lá, onde o sumo da laranja pode ser mais doce,
e as árvores podem ser mais verdes, onde
tudo pode fazer brilhar aquilo
que hoje sou!






TEMA: OUTROS

Nome: Tiago dos Santos Gomes (Escola Secundária Oliveira Júnior)
Título: Utopia do desconhecido



Eu não temo o desconhecido, porque não o conheço. Simples. Aqueles que correm
atrás de um futuro acabam por se perder no passado, deixando no lugar deles um triste vácuo.
Este germina e cria uma delicada memória. Desconhecida. Imortal enquanto viva. Imortal no
próprio esquecimento. Um puro rasto de fumo que se esvai pelo tempo, passando para além.

            Não fujam do mundo. O mundo já foge de nós. Miseráveis corpos sem vida que se
arrastam pelo tempo, até se tornarem reis do seu próprio casulo. (Aparentes) dominantes de si
próprios.
               

                Vocês não percebem pois não?

                O mundo já não nos quer! Esconde-se, traído pela sua própria criação. As nossas almas feitas (de)mentes, nada mais são do que uma imensidão de esquecidos pedaços criados pelo mundo. Que já não nos conhece.

                E é por isso que não nos teme.


ADULTOS

TEMA: AMOR

Nome: Dina Silvério
Título: Murmúrios

Percorri o mundo,
Com pressa de chegar,
Mas na partida, esqueci de levar
O retrato da vida, contigo a sonhar.
Ficou guardado, escondido
Na memória que o tempo apagou
E que o segredo do vento levou.
Percorri o mundo,
Com pressa de chegar.
Não encontrei o caminho
Nem o rosto por quem chorar.
Fui louca por pensar
Que no mundo te iria ver
E no desespero de te ter,
Fui louca outra vez.
Na cegueira dos meus pés,
Percorri o mundo de lés-a-lés.
E sem escutar a razão,
Dei força ao coração
E procurei-te nas marés.
Nesse mundo sem destino,
Parti com pressa de chegar,
Mas este fado malfadado
De mim não quis saber.
Fiquei à deriva, desamparada,
Perdida neste viver.
Pelo mundo deixei de correr,
Sem vontade de lutar;
Agarrei nas mãos este sofrer
E abandonei o meu sonhar!





TEMA: AMBIENTE

Nome: Lizete Gomes
Título: Na praia


Na praia quero sentir
Liberdade e sonhar!
Estendo a minha toalha
Mesmo pertinho do mar

E fico a admirar
Deitada de perna ao léu
A cor escura do mar
Bem mais escura que a do céu

A ouvir o bramir das ondas
No seu constante vaivém
A desfrutar do sossego
Que esta praia ainda tem

Como gaivota que voa
Libertei meu pensamento
Para que, livre, ele possa
Voar ao sabor do vento

Escrevi meu nome na areia
E fiquei, sereno olhar,
A imaginar-me sereia
Nas brumas do alto mar

Veio um onda bravia
À praia semi-deserta
A esta hora do dia
E do sonho me desperta

Varreu meu nome da areia
E em lânguida calmaria
Levou consigo a sereia
Que no peito eu trazia.

TEMA: OUTROS

Nome: Dorinda Dias de Oliveira
Título: Prenúncio de Primavera


São glicínias azuis e perfumadas
Uma doce fragrância a pairar
São a lua e a noite enamoradas
Prenúncio de beleza, a espreitar!

Aroma das serenas madrugadas
Trinados cristalinos a soar.
Nostálgicas mensagens enviadas,
Afinado concerto a anunciar!...

Manhã de Primavera, apareceu!
E os passarinhos novos, com destreza,
Cruzaram, levemente, o liso céu

E levaram p’ra longe, por magia
Intensa poesia, que beleza…
Num esplendor de eterna melodia.


Nome: Ana Margarida Gomes Borges
Título: Poesia


Silenciosamente
procuro nas palavras
o aroma dos fonemas por abrir.
E descubro nas metáforas escondidas
Um jardim de semas a florir
            

                    Aí páro e permaneço solitária
                    Aí escuto os sons do amanhecer
                    trazendo de novo à minha vida
                    Esse lado oculto do meu ser.