quinta-feira, 6 de setembro de 2018

"INQUIETAÇÃO" DE JOSÉ MÁRIO BRANCO



A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes

São flores aos milhões entre ruínas
Meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
Oiro em pó que o vento espalha

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Ensinas-me fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia
Quantas promessas eu faria
Se as cumprisse todas juntas

Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco para chegar
Eu não meti o barco ao mar
Pra ficar pelo caminho
Cá dentro inqueitação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Cá dentro inqueitação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Mas sei
É que não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
Qualquer coisa que eu devia resolver
Porquê, não sei
Mas sei
Que essa coisa é que é linda


"Inquietação" de José Mário Branco, n. 1942, Porto. Músico e compositor



quinta-feira, 30 de agosto de 2018

"MANO A MANO" DE MARIA DA ROSÁRIO PEDREIRA




Vim chorar a minha pena
No teu ombro e afinal
A mesma dor te condena
Choras tu do mesmo mal

Irmãos gémeos num tormento
Filhos da mesma aflição
Nenhum dos dois tem alento
'Pra dar ao outro uma mão
 
O amor não nos quer bem
E quem nos há-de valer
Se um perde aquilo que tem
E o outro não chega a ter

Só no resta um mano a mano
Se não queremos ficar sós
Deixa lá o teu piano
Namorar a minha voz

O amor não nos quer bem
E quem nos há-de valer
Se um perde aquilo que tem
E o outro não chega a ter

Só no resta um mano a mano
Se não queremos ficar sós
Deixa lá o teu piano
Namorar a minha voz
 

 
Mano a Mano
 
Letra: Maria do Rosário Pedreira  (Lisboa, 1959) é uma editora, escritora, poetisa e letrista portuguesa.
 
Música: Júlio Resende 
 
Voz: Salvador Sobral

terça-feira, 14 de agosto de 2018

“A VARANDA DE JULIETA” DE NUNO JÚDICE





Uma vez, entrei em verona para não entrar
em veneza. Entre o vê de verona e o vê
de veneza optei por ver verona. Gostei da
coincidência das consoantes na janela
de julieta; e sei que em veneza não ouviria
o vento da vingança, nem provaria o veneno
de uma volúpia que só em verona se
desvanece com a vida. Não há canais em
verona, como em veneza; nem há janelas
em veneza, como em verona; mas julieta
espreita a rua, da janela que é sua, e se
ninguém diz a senha que só ela sabe, agita
o lenço molhado pelas lágrimas que as
nuvens bebem, levando-as de verona até
veneza, onde a chuva as deita nos canais.


Júdice, Nuno - A pura inscrição do Amor. 1ª ed. Alfragide : Dom Quixote , 2018. , 143 p. ; 21 cm. 978-972-20-6405-7. p. 26