quinta-feira, 2 de setembro de 2010

UMA PAISAGEM DA HOLANDA de Nuno Júdice

Há, em todos os poemas de Pessoa, uma paisagem
da Holanda. As vacas pastam nos campos; e os moinhos
de Delft rodam sobre elas, com asas, fazendo-as
voar ao longo dos diques. Mas não chega meter
uma vaca no centro do poema, nem espremê-la para que
o seu leite se derrame nos aventais das holandesas
de Vermeer, ajoelhadas para escaparem ao reflexo no
espelho da janela. É preciso pôr rodas nas vacas,
e empurrá-las, como bicicletas, ao longo dos canais
de Amsterdão. “Por que não montas na tua vaca?”
perguntam os barqueiros. E só para os irritar salto
para cima dela, agarro nos chifres, como se
fossem um guiador, e viro-a para direita e para
a esquerda, empurrando os vendedores de queijo
flamengo para o rio, onde as bolas de queijo se
transformam em bóias a que eles se agarram,
flutuando durante horas. O problema é quando
a fome os obriga a comer o queijo; e quanto menos
queijo têm, mais se afundam, até se afogarem,
sob o olhar melancólico das vacas do Pessoa.

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