quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Manoel de Barros 1916-2014


O poeta brasileiro Manoel de Barros morreu esta quinta-feira, aos 97 anos, em Campo Grande no Brasil.

O poeta que nasceu em Dezembro de 1916 em Cuiabá, no Estado de Mato Grosso, é o “poeta maior” do Brasil, nas palavras de Carlos Drummond de Andrade. Era também advogado e fazendeiro. Ao longo da sua longa carreira obteve importantes prémios literários, como o Prémio Nacional de Poesia (1966), o Prémio Jabuti (1989 e 2002) ou o Prémio da Academia Brasileira de Letras (2000). Em 2012 recebeu o prémio literário da Casa da América Latina.
Está editado em Portugal com as chancelas da extinta Quasi e da Caminho. Foi aliás esta editora da Leya que publicou uma edição que condensa toda a sua poesia publicada até ao ano 2010. Logo à entrada deste livro, o poeta escrevia: "A única língua que estudei com força foi a portuguesa/ Estudei-a com força para poder errá-la ao dente" .
E é dele também : "Poesia é a infância da língua. Sei que os meus desenhos verbais nada significam. Nada. Mas se o nada desaparecer a poesia acaba. Eu sei. Sobre o nada eu tenho profundidades."
No obituário d' O Globo lembra-se que no documentário Só dez por cento é mentira, realizado por Pedro Cezar e lançado em 2008, quando ao poeta perguntam como gostaria de ser lembrado ele responde: “A gente nasce, cresce, amadurece, envelhece, morre. Pra não morrer, tem que amarrar o tempo no poste. Eis a ciência da poesia: amarrar o tempo no poste”.

  
O apanhador de desperdícios
Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
Manoel de Barros
     

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