quarta-feira, 30 de setembro de 2015

"ARTE POÉTICA" DE ANTÓNIO RAMOS ROSA

 
Se o poema não serve para dar o nome às coisas
outro nome e ao seu silêncio outro silêncio,

se não serve para abrir o dia
em duas metades como dois dias resplandecentes

e para dizer o que cada um quer e precisa
ou o que a si mesmo nunca disse.

Se o poema não serve para que o amigo ou a amiga
entrem nele como numa ampla esplanada
e se sentem a conversar longamente com um copo de vinho na mão
sobre as raízes do tempo ou o sabor da coragem
ou como tarda a chegar o tempo frio.

Se o poema não serve para tirar o sono a um canalha
ou ajudar a dormir o inocente
se é inútil para o desejo e o assombro,
para a memória e para o esquecimento.

Se o poema não serve para tornar quem o lê
num fanático
que o poeta então se cale.

                                                      António Ramos Rosa, in Revista Sílex, 1980

Sem comentários: