sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

"ROMANCE DE UM FUTURO NATAL" DE DAVID MOURÃO FERREIRA




Vai a caminho de Marte
um foguetão de turistas
Turismo pobre... É um charter
de tarifa reduzida
Ou serão refugiados
Parece que vão fugidos
Quem sabe de que se escapam
Quem sabe a que vão fugindo

Consta da lista uma grávida
com ar de Madona antiga
das que inda se desenhavam
nos fins do século vinte
Chegou à pista de embarque
mesmo à hora da partida
E traz escrito na face
aquilo que decidira

Não quer que seu filho nasça
na Terra que vai perdida
Dão-lhe razão
Todos sabem
que funda razão lhe assiste
Todos conhecem o estado
que a pobre Terra atingiu
sobretudo após a grave
crise do século trinta

Vão a caminho de Marte
como quem foge à desdita
Sentem-se dentro da nave
bastante mais protegidos
É como voltar ao espaço
de antes de haverem nascido
Todos a grávida tratam
com cuidados infinitos
E sonham Talvez em Marte
nem tudo esteja perdido
Mas não sabem que na cápsula
um grupo de terroristas
vai sabotando a viagem
mudando o rumo previsto
Fica tudo executado
em pouco mais de três dias

E torna de novo a nave
quase ao ponto de partida
Quem mais se aflige é a grávida
com ar de Madona antiga
ao ver que à Terra terá de
ir entregar o seu filho
Já lhe rebentam as águas
quando se apeia na pista

Já pra dentro de uma cave
os outros a encaminham
Já por entre as dores do parto
um facho de luz luzia
Quem sabe se necessário
não fora enfim tudo isso
para que à Terra baixasse
mais um resgate possível

Pálida pálida pálida
lívida lívida lívida
de costas a mulher grávida
já vagamente sorria.

David Mourão-Ferreira (1927-1996)

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