quinta-feira, 11 de novembro de 2010

"AO DR. RENATO" DE ADÃO CRUZ

Apenas dois raios da frouxa luz do crepúsculo penetram na janela e
atravessam a sala, bordejando timidamente a penumbra e tocando de leve

brilho os sapatos negros.

No além do quarto, para lá da porta, a densa quietude da paz e do silêncio.

Sobre a cama um corpo sem dobras, estendido de cima a baixo

Nem uma vela nem uma flor nem uma renda.


O mesmo leito onde dormiu os sonos temporários.

O mesmo leito onde o sono temporário se fez definitivo.

A nudez física, de singelo pudor enfiada num longo e magro fato preto.

A nudez da vida, despida de mentira, vaidades e impurezas.

A nudez da morte, limpa de crenças e fantasias.

A nudez da vida e da morte abraçadas, por fim, no esquálido enconto de um

corpo que foi gente.

Gente que a gente não gosta de ver partir, por ser rara,

Por ser um verso do Universo, ou simples protão, mas daqueles que deixam na sua órbita um rasto de luz e dignidade.

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